Natal Amargo


Começa em um colapso: a respiração arfante, o peito apertado, o pensamento disparado em círculos cada vez menores e mais sufocantes. Há uma sirene invisível soando por trás dos olhos – os nossos, os da protagonista, os de Pedro Almodóvar. A luz parece agressiva demais, os sons pesados demais, a cabeça latejando em dor excruciante. Não se trata de uma enxaqueca, mas pelo contrário: é uma enxaqueca moral, uma crise de consciência travestida de crise nervosa. Trovões íntimos, tremores, vertigem… NATAL AMARGO abre nesse estado de emergência emocional, no ataque de ansiedade que se espalha pela tela em vermelhos saturados, lágrimas, lembranças e fantasmas.

DOR E GLÓRIA, então. Outro filme de Almodóvar. Belo, sem dúvida. Talvez já não tão perigosamente novo. Há algo de circular nessa filmografia recente, como se cada obra começasse onde a anterior terminou. As mesmas dores reaparecem com outros nomes, as mesmas ausências encontram novos rostos, os mesmos fantasmas mudam discretamente de roupa antes de voltar em cena. A mãe perdida, a passagem do tempo, a criação artística, a fragilidade do corpo, a memória simultaneamente acolhedora e sufocante. De novo a necessidade de transformar a experiência em relato, o sofrimento em melodrama, a perda em permanência. E, no entanto, existe algo de profundamente fascinante nessa insistência. Almodóvar já não parece perseguir a novidade, mas o refinamento da obsessão; retorna aos mesmos temas não só para repeti-los, mas observá-los sob outra luz.

E sim, o interesse já não está apenas na memória, no luto ou nas perdas que alimentam seu imaginário, mas no próprio mecanismo que transforma tudo isso em narrativa. A própria sinopse já reflete essa inquietação: Raúl Rossetti, um diretor em crise criativa, escreve um roteiro protagonizado por Elsa, outra cineasta marcada pelo luto; e, à medida que Elsa tenta compreender a dor de Patricia, Natalia e de tantas outras mulheres que orbitam sua trajetória, suas experiências passam a alimentar uma nova camada de narrativa. Tudo se dobra sobre si mesmo. Histórias geram histórias, personagens absorvem personagens, experiências reais se (con)fundem em ficção, até que os limites entre quem vive, quem observa e quem escreve se tornem cada vez mais nebulosos.

O mais fascinante é que Almodóvar compreende perfeitamente a vertigem desse mecanismo. Durante boa parte da narrativa acreditamos acompanhar o sofrimento de Elsa; depois percebemos que observamos o olhar de Raúl sobre Elsa; mais tarde começamos a suspeitar que observamos o olhar de Almodóvar sobre Raúl observando Elsa. E quando finalmente entendemos a estrutura, o diretor gira a chave outra vez e desmonta toda a arquitetura diante de nós. O que parecia um melodrama sobre o luto se revela em uma reflexão amarga sobre apropriação. Afinal, quem possui uma dor? Quem tem o direito de transformá-la em arte? Até onde a ficção pode avançar sobre territórios que pertencem à intimidade dos outros?

Raúl funciona evidentemente como persona de Almodóvar, mas NATAL AMARGO não está interessado apenas em acompanhar sua crise criativa. O filme usa esse personagem para investigar uma questão mais ampla: o que um artista faz com as histórias que escuta, presencia ou herda? Ao transformar experiências reais em ficção, Raúl converte o sofrimento dos outros em matéria narrativa, e é justamente aí que o filme encontra seu conflito. Mais do que falar sobre o luto, o cineasta fala sobre a criação, a delicada fronteira entre inspiração e apropriação, observação e exploração. Não por acaso, é em Lanzarote que essa tensão encontra sua expressão mais concreta. Uma região vulcânica, luminosa, árida, tal ilha parece existir no mesmo estado dos personagens que lhe atravessam: todos marcados por antigas combustões, mas incapazes de apagar seus vestígios. Ali, experiências são histórias, lembranças tão somente ficção, e as fronteiras entre o vivido e o narrado começam a se dissolver de maneira irreversível.

Essa questão encontra forma ainda mais dolorosa em Beau. À primeira vista, ele parece ocupar uma posição periférica na trama, uma presença afetuosa em meio ao redemoinho emocional que consome Elsa. Mas sua importância cresce justamente porque representa aquilo que o cinema de Almodóvar parece sempre correr o risco de perder: a vida acontecendo fora da arte. Enquanto todos ao seu redor transformam dores em discursos, perdas em narrativas e traumas em roteiros, Beau permanece ancorado no presente. Ele simplesmente cuida. E sua progressiva diluição dentro da estrutura do filme revela algo profundamente desconfortável: pessoas desaparecem das histórias quando deixam de servir à narrativa, mas não desaparecem da vida. Talvez por isso o plano final possua uma força tão melancólica. Quando tudo converge para a imagem de um escritor diante de uma página em branco, a sensação não é de encerramento, mas de permanência. O cursor continua piscando, não como promessa de uma nova história, mas como a evidência de uma inquietação insolúvel. A mesma que atravessa todo o filme: a tentativa de transformar a experiência em narrativa sem jamais conseguir esgotá-la. E é por isso que tal cinema termina sem realmente terminar, deixando no ar aquele ruído persistente que acompanha uma crise de ansiedade ou então, talvez, a inspiração vigorosa para outro filme em sua origem. Cinema de Culto, então.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 73/100

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REVIEW · CANNES

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