Coward


A guerra é uma encenação… e talvez a maior e mais brutal de todas: atores vestidos de farda avançam em formação, marcham pelo arame farpado, representam a coragem e aprendem a morrer como se a morte pudesse ser ensaiada. Em COWARD, Lukas Dhont vira esse teatro de cabeça para baixo, como um palco de TOPSY-TURVY erguido no barro da Primeira Guerra Mundial, e encontra, entre tantas trincheiras, baionetas, hospitais de campanha e pelotões, a possibilidade de uma fuga. Quando soldados transformam sacos de areia em vestidos, cartuchos em joias e o intervalo entre um bombardeio e outro num espetáculo, não estão apenas entretendo a tropa. Estão desertando da realidade sem abandonar o front. Logo, a música substitui a marcha, a fantasia toma lugar da farda, o palco abre uma brecha no arame farpado e, dentre tantas batalhas, dois soldados descobrem que talvez o amor seja uma forma de deserção.

De novo, como em GIRL e CLOSE, Dhont volta a filmar jovens corpos no instante em que o mundo tenta transformá-los em destino. Mas se outrora, Lara lutava contra um corpo que o mundo insistia em reconhecer e dois amigos foram esmagados pelo peso de um sentimento que não havia palavra para descrever, agora a violência possui uniforme, patente, fuzil e bandeira. A Primeira Guerra oferece ao corpo uma ordem absoluta: marchar, obedecer, atacar, matar. Um soldado chega ao front acreditando que a coragem consiste em suportar essa metamorfose, em deixar que o exército transforme o rapaz em homem, o homem em combatente, o combatente em cadáver; outro já descobriu que a única forma de sobreviver talvez seja interromper a marcha, desertar do personagem, escapar pela fresta que a própria guerra, em sua monstruosa ironia, abriu para ele. Em Dhont, o corpo nunca é apenas corpo: é sempre um território ocupado, uma fronteira disputada entre aquilo que o mundo exige e aquilo que ainda se deseja.

Curiosamente é o mesmo território de LA BOLA NEGRA. Os dois títulos olham ao passado como lugar donde o desejo foi obrigada a existir nas margens, entre códigos, disfarces e mascaras impostas. Mas, enquanto o filme de Javier Ambrossi e Javier Calvo investiga a sexualidade queer como uma memória reprimida que retorna para exigir seu reconhecimento, Dhont se aproxima do instante em que o desejo ainda tenta nascer, ainda procura seu nome, ainda experimenta a própria liberdade como quem testa uma porta antes de atravessá-la. Aqui, a questão sexual é mais física, mais perigosamente presente. Homens dormem juntos, compartilham camas, vestem-se de mulheres, inventam personagens e encontram nessa máscara não uma ocultação, mas certa permissão. Claro, a guerra não inventou a ternura masculina; apenas a obrigou a procurar esconderijos. O palco é um deles, a câmera é outro, o amor talvez seja o mais perigoso. A relação entre os dois soldados não se torna poderosa por ser proibida, mas porque é desejada. Um homem olha para outro homem e o quer, e o cinema não desvia o olhar.

O teatro, então, se transforma em missão de guerra, uma operação de resgate contra a realidade. A trupe precisa fabricar escapismo para todos: para os soldados que aguardam o retorno ao front, para os oficiais, para os feridos nos hospitais, para aqueles que precisam rir antes de voltar à trincheira. O paradoxo se torna ainda mais fascinante quando os dois soldados desejam escapar para lugares opostos. Um quer as montanhas, qualquer horizonte distante das trincheiras; o outro não quer que a guerra acabe. “Somos livres aqui.” A frase contém o absurdo central da experiência: a guerra, espaço absoluto de violência, oferece ao homem uma liberdade que a paz nunca lhe concedeu. Deu-lhe um palco, um grupo, uma função, um corpo possível e, inclusive, a oportunidade de amar. Entre os dois, o amor nasce como uma fuga dentro da fuga, um país clandestino erguido entre o front e o espetáculo.

Talvez por isso o título esteja presente desde o primeiro instante, mesmo quando ninguém sequer o pronuncia. Se a coragem é medida pela capacidade de enfrentar, ferir e matar, então talvez o covarde seja simplesmente aquele que se recusa a participar desse espetáculo, aquele que percebe que a farda também é um figurino e que a masculinidade pode ser apenas um personagem mal ensaiado. O que Dhont encontra nessa fuga não é só resposta, mas uma espécie de revelação: depois de vestir outro corpo, cantar outra canção e experimentar uma liberdade que o mundo real não permitia, como voltar a ser exatamente quem se era antes? A guerra pode reconduzir o soldado à trincheira, o exército pode devolver-lhe o uniforme, a História pode exigir novamente o seu papel, mas alguma coisa já escapou. O corpo conheceu outra possibilidade. O desejo encontrou uma linguagem. E talvez seja esse o gesto mais radical: não prometer que a fantasia vencerá a realidade, mas sugerir que, depois de imaginar outro mundo, torna-se impossível obedecer completamente ao antigo. E assim, a verdadeira deserção não acontece quando se abandona o campo de batalha, mas sim quando, mesmo de volta à formação, já não se consegue marchar no mesmo compasso dos outros.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 79/100

CLIPE

Article Categories:
REVIEW · CANNES

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.