9 Templos para o Céu


Por um instante, um frame deixa de ser imagem para se tornar oferenda, é uma folha de ouro repousando sobre o corpo de Buda que não deseja avançar, não deseja possuir o mundo. Está ali. E basta. Está ali enquanto o vento inclina os bambus, o sino desperta outro sino, a fumaça do incenso sobe espiralada e alguma coisa, em algum lugar, quase confundida com o ar, começa a murmurar: om… om… om… não seria uma oração, mas o próprio cinema se ajoelhando diante dos 9 TEMPLOS PARA O CÉU, ou Sompot Chidgasornpongse filmando aquilo que os monges chamam de nada. Não a ausência das coisas, mas a delicadeza com que elas deixam de pertencer a si mesmas. Ali, a folha já contém o húmus, a água já conhece a nuvem, o sopro que abandona o peito caminha lentamente até os galhos das figueiras, balança as bandeiras de oração, desperta pequenos sinos que ninguém tocou. E tudo parece permanecer. E tudo parece partir. Nenhuma forma permanece, nenhuma forma desaparece. Só o vento. Só o sino. Só a respiração. Só cinema e contemplação.

Então a câmera parte, sem ao certo viajar: uma avó e seus netos atravessam nove templos da Tailândia, embora o caminho seja incerto e cada parada, um suspiro, outra maneira de olhar, outra maneira de tocar o mundo. Jovens monges separam arroz, sabão, flores, velas e caixas de oferendas; varrem os pátios, organizam os mantimentos, carregam nos braços aquilo que outros vieram depositar aos pés dos deuses. A matéria circula de mão em mão, e talvez aí esteja um ínfimo de sagrado: nesse gesto que oferece, que recebe, que arruma… o ouro das estátuas, a poeira dos corredores, a madeira escurecida pelo tempo, o tecido açafrão roçando o chão, tudo parece participar da mesma respiração. Chidgasornpongse não filma tal iluminação como revelação que desce do céu, como algo natural, e não é, mas o faz como algo que já estava ali, ou talvez sempre estivesse, nas mãos, na água, no arroz, na fumaça, no corpo… a câmera tão somente permanece o tempo suficiente para que possamos perceber.

Ao público, cabe esse desapego, a sensação de abstração, como se alguma coisa começasse lentamente a se desprender do corpo. Seria meditação? Digressão? Desencarne? Talvez apenas a consciência descobrindo que também possa existir sem o peso de uma forma. A câmera naturalmente sabe disso: se esmaece, levita, se perde, perde o peso, passeia entre colunas douradas, árvores e corredores, acompanha a fumaça que se desfaz no ar, as túnicas que roçam o chão, a mão que acende uma vela, outra que deposita a oferenda. O vento entra no plano e continua o que a imagem começou. Um sino toca ao longe, outro responde mais longe ainda, e o som parece atravessar o templo antes mesmo que a câmera consiga alcançá-lo. As preces se repetem, repetem, repetem, até que as palavras deixem de ser linguagem e reste apenas esse sopro. O canto dos monges, os pássaros, as folhas, a madeira, os passos descalços, tudo se mistura numa mesma matéria sonora, até que já não saibamos se contemplamos o filme ou o filme nos contempla. Talvez seja essa a forma mais profunda de meditação: fazer com que, por alguns instantes, a alma se esqueça de estar dentro do corpo.

Aos poucos, esquecemos da avó, a avó menos pessoa, mais despedida. Seu corpo ainda está ali, entre filhos e netos, mas seu olhar parece pertencer a outro lugar. Sim, a família tentou, foi aos templos, tentou acumular mérito como se pudesse negociar com a morte, mas a avó, ela só compreende, com uma serenidade triste, aquilo que os outros ainda não conseguiram aceitar: partir também faz parte da viagem. Então ela só se afasta, sem milagre, sem tragédia, apenas a dor simples de perceber que alguém que amamos já começou a ocupar o espaço da saudade. A avó parte. Os netos permanecem. O amor também, já sem o corpo, sem as mãos para tocar, mas ainda assim capaz de nos tocar. No fim, resta o último templo, os ventiladores girando diante do altar, a vida insistindo em seu movimento banal depois que alguém partiu. E talvez um último frame para a aceitação: não a promessa da imortalidade, mas a compreensão de que nenhuma despedida consegue interromper o mundo.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 74/100

TRAILER

em breve…
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REVIEW · CANNES

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