Fjord


As montanhas cercam a água. A água cerca a terra. Entre uma coisa e outra, uma família tenta permanecer. É nessa paisagem de pedra, água e fronteira que Cristian Mungiu instala FJORD, um filme cuja geografia não serve só de cenário, mas de força. Diante da paisagem, essa família chega da Romênia à Noruega com cinco filhos, a fé e uma ideia de valores que não atravessa a fronteira sem deixar suas marcas. Trazem consigo um senso de disciplina, de hierarquia, de moral, uma maneira de educar e pertencer. Ao redor deles, o território permanece belo, organizado, silenciosamente hostil. As montanhas não perguntam quem chegou. A água não reconhece quem pertence. E, pouco a pouco, eles descobrem que atravessar um país talvez seja mais simples do que atravessar a ideia que um país constrói sobre si mesmo.

Mungiu filma esse percurso como quem observa a neblina avançar sobre a cidade. Primeiro, pouco se enxerga. Depois, tudo parece próximo demais. Uma escola. Uma suspeita. Um professor. Uma instituição. Uma família. A proteção começa a se mover e o movimento possui a aparência limpa das coisas corretas. Nada explode. Ninguém precisa gritar. O território simplesmente se estreita. Os Gheorghius continuam dentro da própria casa, mas a casa começa a deixar de ser inteiramente deles. A autoridade dos pais é (re)examinada, a disciplina é (re)interpretada, os costumes são (re)pesados. Por tal escrutínio, os protagonistas permanecem dúbios. Seus valores, sim, permanecem severos, sua fé permanece incômoda, sua concepção de autoridade pode parecer tão distante do mundo quanto uma língua estrangeira. Mas a instituição que chega para proteger também carrega consigo uma certeza: a de que conhece melhor a criança, a família e o futuro desse “lar”. A neblina engrossa. O que parecia cuidado começa a cercar.

O mais perturbador é que a família não muda. Quem muda somos nós, o público e lentamente, como quem atravessa uma paisagem sem perceber que deixou de enxergar donde partiu. Mungiu não transforma os Gheorghius em pessoas melhores, nem pede que aceitemos seus valores. A fé continua sendo fé. A disciplina sendo disciplina. O desconforto está ali, mas, em algum ponto, a pergunta já não é se gostaríamos de viver nesse lugar, nem se concordamos com a maneira como aqueles pais educam seus filhos. A pergunta se torna menor e mais terrível: quem tem o direito de decidir que uma família deixou de ser uma família? É uma pergunta que o filme jamais diz em voz alta, mas que chega como a água, repetidamente, batendo contra a pedra. E então percebemos que começamos a defender os protagonistas. Não sua moral, nem sua religião, tão pouco seus métodos. Só a família. O direito de permanecer junto mesmo quando seus valores nos parecem estranhos, antiquados ou errados. Esse o ponto em que a paisagem se desloca. O que antes parecia uma família presa num país estrangeiro começa a parecer um país inteiro fechado ao redor de uma família.

Assim, a câmera observa sem oferecer abrigo. Seus personagens permanecem diante de nós como pequenas figuras entre montanhas, águas e instituições muito maiores do que eles. A Noruega surge como território de luz pálida, céus baixos, ruas molhadas, casas organizadas e montanhas que parecem possuir sua própria identidade. Um mundo em que tudo pode ser visto, mas nem tudo pode ser compreendido. A família, por outro lado, traz outra paisagem feita de fé, sangue e disciplina. Duas geografias se encontram e nenhuma consegue desaparecer. O conflito surge não apenas entre pais e instituições, mas entre duas ideias de origem. Para alguns, a família é uma construção que pode ser corrigida quando falha. Para outros, é o primeiro território, o lugar de onde tudo parte e ao qual se retorna. Mungiu não transforma essa colisão em guerra de slogans, mas deixa acontecer naturalmente pelos personagens e o seu cotidiano nas salas, nas casas, nas distâncias entre uma pessoa e outra. Pessoas que se veem. Pessoas que falam. Pessoas que, cada vez mais, não conseguem alcançar umas às outras. E, por trás de tudo, a água continua batendo nas montanhas.

Quando termina, o que permanece não é uma tese, tão somente uma paisagem: essa família que não se tornou mais simpática. Essa instituição que não se tornou simplesmente monstruosa. Esse país que continua belo. Essa fé que continua estranha. Essa criança que precisa ser protegida e os pais que talvez estejam errados. E além, uma distância que cresce entre todas as coisas, como se as montanhas tivessem se aproximado durante a noite. Mungiu naturalmente não constrói uma ponte. Apenas deixa a água passar entre elas, escura, profunda, carregando neve, vozes, crenças e tudo aquilo que se leva quando atravessa uma fronteira. É nesse ponto, quando percebemos que desejamos que a família fique junta, mesmo sem acreditar em quase nada daquilo em que eles acreditam, já estamos do outro lado. A água continua ali. As montanhas continuam ali. A neblina baixou sobre o fiorde. E ninguém sabe mais se a família foi cercada pela paisagem ou se a paisagem, pouco a pouco, foi cercada por ela.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 80/100

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REVIEW · CANNES

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