

A fúria, DESEJO E REPARAÇÃO do cinema queer! BOLA NEGRA! Eis que chegam os amantes, os exilados, os mortos que ainda têm nome, os rapazes que atravessam o mundo com o coração entre os dentes! BOLA NEGRA! Abram as janelas, ergam as cortinas, chamem os santos, os pecadores, os fantasmas da história: é o cinema gay voltando para reclamar suas lendas, suas lágrimas, seus corpos, suas canções! E a corneta toca! Toca para os velhos, para os cães, para as matronas, a cidade inteira que espera em festa enquanto alguma coisa se move acima das cabeças, além do azul, além da música… alguma coisa que talvez traga consigo a História, essa velha senhora que nunca chega de mãos vazias. Existe aqui, a linhagem dos irmãos Taviani, o encantamento de Tornatore, essa maneira de transformar a memória política em fábula popular, mas o filme pertence sobretudo à poesia. À poesia de gente filmada com ternura, dos enquadramentos que abraçam o mundo, dos homens que carregam nos olhos a vergonha e ainda assim encontram uma forma de sorrir. BOLA NEGRA! Sim, é um melodrama. Mas que venha o melodrama! Que rufem os tambores! Que se abram as portas do cinema! Porque, quando um filme grita tão alto contra o esquecimento, até a memória precisa se levantar e dançar.
Ao fundo, ouvimos a corneta, mas o tempo muda de rosto: 1932, 1937, 2017… três homens, três gerações, três vidas que não se conhecem e, ainda assim, parecem escutar a mesma música atravessando os anos. Como nAS HORAS, de Stephen Daldry, LA BOLA NEGRA constrói sua narrativa pelas entrelinhas: uma vida deixa sua marca na seguinte, um gesto atravessa décadas, uma palavra perdida espera por outra boca. A História entra primeiro como festa. Depois, como ameaça. Por fim, como pergunta. 1932 acende a chama. 1937 sopra sobre ela. 2017 descobre o que ainda ardia. E os homens continuam ali, tentando compreender aquilo que lhes aconteceu, aquilo que lhes foi arrancado, aquilo que, contra toda a lógica, recusou-se a morrer. Três homens. Três tempos… uma mesma história passando de corpo em corpo, até descobrir que talvez não queira ser lembrada, mas cantada.
E então, que cantem a História! Penélope Cruz aparece diante dos soldados. Uma mulher, uma voz, homens fardados, o mundo inteiro suspenso por minutos diante de uma canção. A guerra continua lá fora, mas o cinema abre uma clareira no espaço-tempo e dentro dela Penélope canta. Canta para os soldados, canta contra os soldados, canta por todos aqueles que já não podem cantar. A sua presença é tão apoteótica que o filme parece deixar de ser filme e se transforma em aparição, teatro, milagre. A farda, a música, o corpo, o desejo: tudo se mistura na imagem da beleza quase indecente, dessas que não pedem licença à História porque sabem que, por alguns minutos, podem ser maiores do que ela.
E quando a canção termina, a narrativa não baixa sua voz. A montagem corta, salta, atravessa décadas; a fotografia muda de pele; os rostos envelhecem, desaparecem, reaparecem, e o filme continua correndo atrás dessa música que ninguém conseguiu calar. Glenn Close entra nessa corrente como uma grande sacerdotisa da narrativa, recitando, explicando, abrindo portas para que outros homens atravessem. E os atores, todos eles, carregam o filme como se carregassem uma chama roubada de uma geração e entregue à seguinte. Não existe qualquer frieza aqui, existe sim um delírio, a sucessão de imagens que se procuram através do tempo, a fanfarra que muda de instrumentos sem jamais deixar de tocar. Tudo passa de um rosto a outro, de uma voz a outra, de uma época a outra, e cada corte parece dizer: ainda não acabou, ainda não acabou, ainda não acabou.
Então que se abram novamente as portas! Que voltem os amantes, os exilados, os mortos que ainda têm nome, os rapazes que atravessaram o tempo com o coração entre os dentes! Porque aqui se olha para a História sem permitir que ela tenha a última palavra. A última palavra pertence ao cinema. Pertence aos amantes. À música. Ao corte. À luz. Àqueles homens que atravessam décadas carregando, sem saber, a mesma pergunta para, enfim, compreendemos que a velha senhora que se movia acima das cabeças, que chegava sem nunca trazer as mãos vazias, que passava de corpo em corpo, de voz em voz, não era apenas (um)a História… era só poesia. BOLA NEGRA! Que rufem as trombetas! Que cantem os mortos! Que os amantes finalmente encontrem o caminho de volta! Ao final, a neve cai sobre os homens, sobre os nomes, sobre aquilo que foi perdido e aquilo que ainda pode ser salvo. Cai, cai, cai. E neste filme tão quente, tão cheio de desejo e memória, até a neve encontra enfim sua voz.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 83/100

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