No Caminho


No caminho (ou caminhão?) daqueles cinemões que se sentem na pele, na língua, no corpo, David Pablos nos mergulha no fetiche da estrada, no cheiro de borracha queimada e urina velha, no suor que escorre pela nuca depois de horas de cabine fechada… seu filme (ou cruising?) é senão, excitação, corpos que se encontram às escondidas entre caminhões estacionados cientes de que o perigo do cartel ali ronda, mas também acesos pela ameaça constante.

Veneno atravessa a tela como fagulha insolente, o protagonista que se encosta no balcão da cachimba, regata colada no corpo, jeans gasto que denuncia mais do que esconde. É a faísca que provoca olhares (do público inclusive), corpo que sabe ser (ad)mirado. Do outro lado, Muñeco é a rocha (?), masculinidade endurecida, o silêncio como máscara. Mas basta a carona da boleia para que essa dureza comece a frouxar. O espaço diminui, o ar pesa, o olhar se prolonga. Não há qualquer ternura, mas sim combustão. O acidente vira toque, o toque vira necessidade.

Pablos filma o erotismo como Fassbinder outrora em QUERELLE, deixando que o fetiche se infiltre nas coisas banais. O cigarro que queima no escuro, a graxa que suja as mãos, a tequila que escorre pelo copo, tudo exala desejo. Nada é limpo, nada é neutro: cada quadro tem cheiro de diesel, fumaça, carne… o sexo nunca é mostrado de frente, mas está em toda parte, insinuado no suor do banco do motorista, no ranger metálico da cabine, na respiração que se torna mais pesada a cada quilometro de estrada.

E sim, estamos no México e a violência dos cartéis não é só pano de fundo, é o mesmo risco que alimenta o prazer. Estar vivo já é estar em perigo, e estar em perigo é o que torna cada encontro ainda mais urgente. A narrativa funciona como um road movie que é também cruising perigoso, na mesma chave de UM ESTRANHO NO LAGO, mas deslocado para o deserto noturno, em que cada parada é chance de gozo ou emboscada. A masculinidade, aqui, é desmontada no próprio ato de se afirmar. Muñeco tenta sustentar a máscara, mas o corpo lhe trai. A cena em que perde a ereção diante de uma prostituta não é apenas cruel, é ridícula, e Pablos sabe rir do mito viril. O macho que se diz pedra se revela carne, e carne quer ser tocada.

Nesse caminho, nada é romance, nada de amor doce ou amor queer. É combustão que (nos) queima do começo ao fim, sexo que se mistura ao risco, suor que gruda na pele como poeira da estrada. Ao fim, resta a sensação de percorrer um filme que não pede desculpas: sujo, quente, úmido, rodado como se fosse escrito no banheiro de um posto, entre o cheiro de gozo e diesel. Um cinema que respira como vapor de mijo no azulejo, nos deixando entre o nojo e o tesão, exatamente onde queria estar.

RATING: 73/100

TRAILER

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REVIEW · VENEZA · MOSTRA SP · FILMES LGBT

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