Jovens Mães


Ao longo de mais de três décadas, Jean-Pierre e Luc Dardenne construíram um cinema que nunca se esquiva do confronto. Seus filmes são, assumidamente, panfletos sociais e mais, panfletos sobre gente donde a denúncia não se faz somente pela insurreição, e sim pelo atrito direto entre o indivíduo e o sistema. JOVENS MÃES – e de novo – se inscreve nessa linhagem, um filme que olha de frente para a maternidade adolescente como problema social, político e estrutural, sem jamais permitir que o público se refugie na distância confortável da compaixão.

Ambientado em uma casa de acolhimento para jovens mães, o filme adota uma estrutura coral inédita na filmografia dos irmãos. Cinco adolescentes (Jessica, Perla, Julie, Ariane e Naïma) atravessam trajetórias distintas, mas atravessadas pelo mesmo determinismo: pobreza, abandono, herança de violência ou ausência de perspectivas, não importa e não se trata de exceções trágicas, mas de casos-tipo, um filme-dossiê portanto, donde se organiza o (mesmo?) inventário social para mapear – quase que clinicamente – as situações-limite produzidas por um mesmo sistema.

A acusação de frieza, porém, revela menos uma falha de narrativa do que uma mudança estratégica em relação à tradição dardenneana. Se em ROSETTA, O FILHO ou A CRIANÇA, a câmera se agarrava obsessivamente em um único personagem para extrair dele uma tragédia moral, aqui a emoção é deliberadamente diluída. O foco não está na exceção que se torna épica, mas nessa repetição entre as histórias. E ao multiplicá-las, o roteiro insiste na ideia incômoda de que não importa tanto quem são essas jovens, mas quantas são e por que continuam surgindo aos montes.

Nesse sentido, a casa de acolhimento não funciona somente como cenário, mas como dispositivo político de cuidado, assistência e tentativa de reparação social. Quase um personagem próprio, onde os irmãos filmam em uma rara presença não repressiva do Estado, mas pelo contrário, até de amparo, ou senão um elogio implícito ao serviço público, à pedagogia do cuidado, à possibilidade de autonomia… ao mesmo tempo, esse espaço jamais é idealizado: ele não salva, não redime, não resolve. Apenas oferece uma chance mínima de reorganização. Aliás, a narrativa insiste na ideia de que, sem essas instituições, o desastre seria ainda maior, quase que uma constatação que ecoa diretamente o cinema social europeu pós-Ken Loach, mas com a sobriedade ética característica dos irmãos belgas.

Pela profusão de tantas histórias, infelizmente não cabe um tratamento mais profundo da relação entre as mães e seus bebês. Ali, as crianças são meros estorvos, presença irredutível de algo que exige cuidado e consome todo o tempo, o corpo e o espaço. Pequenos agentes não de redenção nem ternura, mas somente de responsabilidade. A maternidade (tão jovem? Tão imatura?) é senão menos afeto do que condição material.

Sim, uma leitura dura, mas não seria de outra forma com os Dardennes, incluindo aqui a direção, a obsessão em filmar os personagens tão de perto, os planos que partem do rosto para reinscrever os personagens mecanicamente na cidade, no bairro, na engrenagem social. Ainda assim, existe uma mudança no tom, certa suavidade, diria até carinho com as meninas. O que torna o horror (o suspense social?) ainda mais insidioso.

Ao final, como toda denúncia eficaz, tal cinema pode ser incômodo, imperfeito, até frustrante, mas ame ou deixe, permanece necessário. Em tempos de apagamento social sistemático, os irmãos Dardenne seguem fazendo o que sempre fizeram (e importa): um cinema como ato político, sem ornamento, sem álibi, sem desculpas.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 75/100

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FILMES · CANNES · MOSTRA SP

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