O Olhar Misterioso do Flamingo


O OLHAR MISTERIOSO DO FLAMINGO se enxerga como um duelo em câmera lenta entre o sublime e o sentimental, um faroeste crepuscular onde o pastiche se ajoelha diante da fantasia e o amor livre cavalga sem rédeas pelo deserto. É a celebração da vida por meio de figuras estranhas e luminosas, frágeis e resilientes, personagens que parecem existir fora do seu tempo e ainda assim carregam o peso exato de uma memória coletiva. Um tributo, portanto, ao cinema como território de reinvenção, onde Pedro Almodóvar e Sergio Leone se encontram sob o mesmo pôr do sol, abençoando a estreia de Diego Céspedes, tão jovem e seu primeiro filme já pólvora e poesia: uma história de família, carinho e inocência, que caminha devagar como quem sabe que vai nos alcançar e nos alcança. Nos emociona. Nos desmonta. Porque tudo ali pulsa com a intensidade e a dor contida dos anos 80, um tempo de silêncios, de descobertas, de lágrimas. E que passa, já passou, e seguimos adiante.

Ambientado no deserto chileno do início daquela década, a narrativa acompanha uma menina criada em família queer às margens de uma cidade de mineradores. O espaço é árido, digo físico e moralmente, e Céspedes tão somente filma esse lugar como um território mítico, onde cada gesto cotidiano carrega o peso de uma ameaça invisível. Por exemplo, corre o rumor de que uma doença pode ser transmitida pelo olhar, quando um homem se apaixona pelo outro. O medo se espalha com a mesma rapidez do preconceito, e o olhar (misterioso?), esse instrumento fundamental do cinema, se torna também um vetor de condenação. “Ver” passa a ser perigoso. Amar, mais ainda.

É nesse ponto que o diálogo com Almodóvar se impõe. A casa-cabaré onde vive essa comunidade funciona como refúgio cromático e afetivo, um espaço de excesso emocional em contraste direto com a hostilidade externa. Ali, gente dança, briga, cuida uns dos outros, constrói uma família possível em meio ao abandono. O roteiro abraça esses personagens com um carinho vibrante, atento às texturas da pele, aos figurinos, ao gesto exagerado que esconde vulnerabilidades profundas. O melodrama naturalmente está ali, não como ornamento, mas em linguagem de sobrevivência.

Ao mesmo tempo, tal cinema se estrutura como faroeste. O deserto, os duelos, a comunidade sitiada, a criança que atravessa um rito de passagem movida por vingança e curiosidade… Sergio Leone ecoa na dilatação do tempo, nos confrontos silenciosos, na importância do espaço vazio como campo de tensão. A jornada da menina assume ainda mais contornos misteriosos, conduzida menos pela lógica adulta do mundo e mais pela imaginação infantil. O olhar que mata se transforma em relâmpago, em fogo nos olhos, em imagem quase sobrenatural. Não é ingenuidade. É o nascer da percepção em estado bruto.

Formalmente, o que se vê é uma encenação que equilibra rigor e desborde. A câmera se move com suavidade calculada, permitindo que os personagens ocupem o quadro como quem reivindica espaço em um mundo que os rejeita. A música, os gestos coreografados, os momentos de suspensão narrativa criam uma atmosfera onde o real se curva ao imaginário. Não se trata de reconstruir os anos 80 com precisão histórica, mas sim de recriá-los enquanto sensação, donde o tempo se marca pelo medo difuso, o desejo reprimido, a necessidade urgente de afeto.

No fim, o deserto fala por tudo o que não pôde permanecer: a infância se encerra sem retorno possível, o amor sobrevive como memória incômoda e o olhar, antes acusado de perigo, se impõe como última forma de resistência. Diego Céspedes encerra o filme sem suavizar a beleza nem domesticar a dor, aposta sim em um cinema que transforma delicadeza em risco e imaginação em permanência.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 78/100

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FILMES · CANNES · TIFF · SAN SEBASTIAN · RIO · FILMES LGBT

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