Um Poeta


UM POETA é cinema preso à poesia, pulsando por ela, perdido nela… não se interessa por redenção nem narrativa; existe somente como o protagonista: ali para o verso e apenas por ele. Tudo o que se vê, tudo o que se toca, tudo o que se estraga passa por esse filtro obsessivo, pueril, quase infantil, como se o mundo só pudesse fazer sentido quando submetido à linguagem poética.

Por ele, Ubeimar Ríos encarna o feio, o febril, o fascinado: um corpo deslocado no espaço social, um rosto que parece pedir desculpas por existir. E é justamente aí que sua relação com a poesia se impõe como algo coerente, quase inevitável. A poesia, aqui, não funciona como elevação espiritual, mas um mecanismo de sobrevivência: a tentativa desesperada de enxergar beleza onde, à primeira vista, não existe. No próprio espelho, na Medellín áspera, nas salas de aula sem glamour, nos bares esfumaçados, nos saraus patéticos, Simón Mesa Soto filma a poesia como último abrigo para quem não cabe em lugar nenhum.

Desse abrigo precário nasce também a ilusão mais persistente: como no poema de Carlos Drummond de Andrade, “A Flor e a Náusea”, a poesia aparece não como consolo, mas como afronta. “Uma flor nasceu na rua!”, escreve Drummond, espremida entre o “rio de aço do tráfego” e a brutalidade do cotidiano. Aqui, a flor também brota onde não deveria: no corpo errado, na sala errada, no verso declamado para quem não pediu. Não há pureza nesse gesto, apenas insistência. A flor vem suja, torta, atravessada pela náusea do mundo e ainda assim é defendida com fervor. Amar a poesia, nesse filme, é aceitá-la assim: frágil, deslocada, fora de lugar, mas necessária para continuar respirando.

O apego absoluto à poesia sustenta ainda o ponto mais delicado do filme: a relação com Yurlady, sua aluna favorita. Sim, um talento raro, mas ainda em formação, que escreve não por vaidade, mas porque algo precisa romper a superfície. Ele, porém, não a vê exatamente como pessoa, mas sim como promessa, um verso à espera de lapidação. É aí que o desconforto se instala. Como no poema de Drummond, quando “o tempo pobre, o poeta pobre / fundem-se no mesmo impasse”, a poesia deixa de ser horizonte e passa a ser exigência. Ao tentar conduzi-la ao “mundo dos poetas”, ele não a liberta, pelo contrário. Quer arrancar a flor do asfalto antes que ela aprenda a crescer sozinha. O gesto, travestido de cuidado, carrega a mesma contradição drummondiana: defender a flor, mas impor-lhe o peso da náusea. A poesia, então, deixa de ser abrigo e passa a operar como projeção, um lugar onde o afeto já não se distingue de apropriação.

O cineasta é implacável ao mostrar que a violência em jogo não nasce da perversão, mas de um excesso até de pureza. Longe de um predador evidente, o protagonista é algo mais incômodo: um idealista. Alguém que acredita tanto na poesia que passa a confundir pessoas com possibilidades, vidas com matéria verbal. A desigualdade entre eles – ele, o homem, professor, protegido pelo capital cultural; ela, a jovem, periférica, sem lugar de fala reconhecido – não funciona como pano de fundo, mas senão engrenagem trágica.

Também a escolha pelo Super 16mm não é mero fetiche estético, mas extensão desse impasse. A granulação áspera, a textura imperfeita da imagem, tudo reflete um homem fora do tempo, um poeta preso a um passado que nunca existiu. Como o próprio cinema que o filma, ele está condenado à falha: nada é limpo, nada é plenamente belo e ainda assim insiste. Como em Drummond, quando escreve “É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.” Oscar também é feio, também insiste em ser flor. UM POETA, afinal, é um filme sobre o perigo de amar demais a arte: o instante em que a poesia deixa de ser linguagem e se torna ideologia. Mesa Soto observa esse desvio sem qualquer absolvição ou condenação, deixando apenas uma constatação amarga… talvez de que o personagem só exista para a poesia porque não soube existir para mais nada. E talvez, aqui, a poesia não seja salvação, mas a própria náusea.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 74/100

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FILMES · CANNES · TIFF · SAN SEBASTIAN · RIO

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