Diário do Diretor


Aleksandr Sokurov sempre filmou como quem atravessa corredores escuros à procura de ecos. No DIÁRIO DO DIRETOR, ele reabre a arca russa que parecia já encerrada em seu filme mais célebre, e a conduz agora por águas mais turvas e meticulosas… não se trata mais da jornada deslumbrante pelo Hermitage, com sua câmera flutuante e vertigem barroca, mas de uma deriva paciente e exigente, um deslocamento por páginas, vozes e ruídos de um século em decomposição.

Sokurov compõe seu diário em três registros: o olhar, sustentado por material de arquivo, velhos filmes de propaganda, desfiles militares e cenas de teatro; o ouvido, atravessado por canções, discursos ufanistas e murmúrios de rádio; e a palavra escrita, que surge na tela como inscrição insistente, linha após linha, numa cronologia que lembra tanto um compêndio didático quanto uma Wikipedia assombrada. O resultado não é a soma, mas a coreografia, um balé entre imagens e sons que se impõe como hipnose, talvez um “PowerPoint vivant” de cinco horas que poderia habitar os salões de um museu, tal o rigor e minúcia com que se organiza a massa de informações.

O público, nesse fluxo, é mero discípulo, convocado a suportar a densidade de uma história que não cessa de se multiplicar. Sokurov não busca nem síntese nem catarse, sua ambição é outra, mais severa: a de fazer sentir o peso do tempo como acúmulo, um tijolo após o outro, como quem ergue uma muralha de memórias. Há momentos em que a cadência se assemelha à de Godard em ADEUS À LINGUAGEM, mas aqui a ironia é substituída por um luto sereno, como se o cineasta se conformasse com a lentidão inevitável do estudo.

Se A ARCA RUSSA nos conduzia por séculos de cultura russa em um só fôlego, DIÁRIO DO DIRETOR retoma a travessia por dentro de uma clausura. Lá, o narrador desviava o olhar do período soviético, aconselhando o visitante a não abrir aquela porta escura. Aqui, Sokurov a escancara e nos obriga a entrar e seguir na exploração minuciosa daquele quarto interdito: nele estão Khrushchov e Brejnev, trabalhadores sorridentes e camponesas felizes, o folclore oficial de um país que se anuncia eterno. Mas ao lado da farsa corre a inscrição das outras histórias: assassinatos políticos, guerras coloniais, Nobel de literatura, acidentes aéreos, nascimentos de artistas pop. Um palimpsesto onde se justapõem o épico e o trivial, o rumor mundial e a encenação local.

Essa duplicidade revela o gesto central de Sokurov: sua arca não é apenas um cofre que preserva tesouros, mas também um inventário de ruínas. Ele sabe que o Old World não muda, como escreve em sua declaração, e por isso insiste em mostrar como a repetição constrói mitologias e mantém impérios de pé, mesmo quando já estão em colapso. Ao contrário da pirotecnia de outrora, seu cinema agora prefere a persistência, o cansaço, a lentidão como ética. O épico não está mais na grandiosidade formal, mas na obstinação de seguir folha por folha, data por data, sem pressa de chegar.

E sim, tal cinema é monumental porque recusa o espetáculo. Além da lição é também um feitiço que nos arrasta por uma viagem onde cada minuto pesa como década. Ao final, não há conclusão, apenas a sensação de termos atravessado novamente a arca russa, não aquela que deslumbra, mas a que persiste, cerrada, como um baú cheio de fantasmas.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 73/100

TRAILER

em breve…
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REVIEW · VENEZA · MOSTRA SP

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