


Uma jornada em que o cinema se torna embarcação flutuante, esse navio fantasma atravessando mares internos e externos… LE LAC é a metáfora náutica por excelência: a travessia da vida e do luto, uma odisseia onde o visível carrega seu forro invisível, a ausência que ecoa sem fim nesse azul. Como poesia, sonho ou filme, a narrativa se abre nas sombras do abismo: ali, vemos uma mão tateando a água, buscando submergir e tocar o inaudito, talvez um mergulho interior, talvez um escafandrista da alma em busca de porto seguro, não importa, logo somos içados às velas e lançados ao mar aberto da câmera experimental de Fabrice Aragno, o capitão que desenha no horizonte, esse Sol prestes a desaparecer, o farol que se apaga, o fim do dia e o início da noite interior.
As imagens náuticas são silenciosas e expressivas: cordas rangendo como velhas baleias amarradas ao casco, tensão palpável, diálogo mudo entre embarcação e elementos. O vento, força invisível e primordial, movimenta as velas e impulsiona a narrativa — sopro vital que não controlamos, mas precisamos aceitar.
Entre digressões, um casal repousa na relva — ancoradouro temporário em terra firme que contrasta com a vastidão do oceano e das ondas que vêm e vão. O dia transcorre sob o Sol; a noite traz silêncio e vazio, onde as mãos do casal tateiam a água numa busca que é dança e negociação entre o presente e o que se perdeu. O barco segue adiante, navega docilmente entre vozes e mar aberto. A travessia é do luto, sim, mas também do encontro, da companhia nas ondas revoltas da vida. O pai brincando com a filha lembra que, mesmo nas tempestades, a embarcação pode abrigar ternura e esperança. E assim seguimos, nós, o público, à deriva, negociando com o invisível.
No crepúsculo dessa odisseia, a mão alcança finalmente o céu vasto, como o horizonte que se afasta à medida que tentamos tocá-lo. É o limite da travessia, o ponto em que o navegante aceita a impossibilidade de cruzar para “o outro lado”. Ainda assim, na maré que sobe e desce, no sopro do ar, no movimento das nuvens, ouve-se a voz da vida: um chamado que envolve e dilacera, nascido do profundo desgosto que a natureza impõe.
Aragno, com precisão técnica e sensibilidade de quem guia o leme em mares agitados, constrói uma experiência cinematográfica em que o espectador navega pela penumbra, pelo limbo cadenciado das ondas visuais e sonoras. A linguagem marítima — cordas esticadas como tensões emocionais, águas profundas onde mãos buscam contato, noites silenciosas como portos de introspecção, a sensação inevitável de estar à deriva — traduz o luto: um mar que não se domina, mas no qual se aprende a navegar entre memória, ausência e presença simultâneas.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 71/100

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