


A croata Hana Jušić já havia provado em sua estreia, com ENCARANDO MEU PRATO, que sabia farejar histórias nos interstícios da opressão. Nove anos depois, agora com DEUS NÃO VAI AJUDAR, ela volta como quem retorna de uma longa caminhada pela noite e pela névoa, trazendo na bagagem um filme que parece brotar da própria crosta dura das montanhas dináricas: um cinema impregnado de chiaroscuro que remete tanto ao Rembrandt do interior de cabanas quanto pelas paisagens atormentadas
A premissa é simples: a estranha, uma mulher chilena (vivida com hipnótica gravidade por Manuela Martelli), chega a uma comunidade pastoril e isolada na Croácia do início do século XX, afirmando ser viúva de um emigrante que partira para as minas do Chile décadas antes. Carrega consigo restos mortais, memórias entrecortadas e um desejo quase febril de fincar raízes naquele solo estranho. Sua presença, no entanto, é como uma pedra arremessada num lago estagnado: a água se move, a lama sobe, segredos afloram.
Naturalmente a cineasta filma esse choque de mundos como um embate entre luz e sombra – interiores filtrados por fendas de claridade, rostos meio encobertos pelo peso de paredes de pedra, e exteriores varridos por ventos que parecem carregar séculos de isolamento. A influência declarada de VITALINA VARELA é visível, mas o romantismo dO MORRO DOS VENTOS UIVANTES permeia cada plano aberto, criando um contraste entre a rigidez social e a ferocidade da paisagem.
A linguagem – ou melhor, tropeço – é uma das chaves da narrativa: a personagem fala apenas espanhol; a maioria dos aldeões, apenas croata. A irmã do falecido, é a primeira a oferecer escuta, e essa escuta silenciosa torna-se mais eloquente do que qualquer diálogo. O texto subverte qualquer receio escolar de “monólogo arriscado” e constrói momentos em que uma fala se derrama diante de um ouvido atento que, mesmo sem compreender, absorve e reflete. O espectador, privilegiado pela legenda, crê conhecer mais que os personagens – até perceber que a protagonista oculta tanto quanto revela.
Nesse sentido, a história é menos sobre a veracidade do que se diz e mais sobre a necessidade de dizer, de ser vista, de se inscrever num tecido social que não a quer costurada nele. O patriarcado camponês, aqui, não é mera caricatura, mas realidade entranhada nos gestos, nos rituais, na economia de palavras. A chegada da estrangeira às mulheres da aldeia um vislumbre de liberdade, ainda que fugaz, ainda que pago com o preço da dúvida.
Há uma tensão constante entre a natureza como promessa de fuga e prisão. A proximidade do mar, nunca plenamente mostrado, é quase irônica: turistas bronzeiam-se a poucos quilômetros, enquanto a trama se desenrola num enclave onde o tempo se arrasta como rebanho pelo pasto. O próprio processo de produção reflete esse atrito: anos de busca por locações, custos inflados pelo turismo, um set poliglota que espelha a Babel narrativa.
Ao final, o que se percebe, além de um drama histórico convencional, é um retrato barrocamente contido daquilo que se move por baixo da superfície: solidariedade como resistência, mentira como sobrevivência, desejo como heresia. Um cinema que, diante das perguntas, não oferece respostas, mas luzes e sombras, para que o espectador caminhe nelas – e se perder um pouco pelo caminho.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 69/100

TRAILER

