


“Como a chuva de dezembro em minha pátria,
nosso sangue jorra em abundância.
Como o rio Jordão correndo docemente,
nosso sangue flui em abundância.
Nas grandes cidades do nosso mundo,
em todos os cantos da minha pátria,
nosso sangue se derrama.”
Há algo de vertiginoso nessa mensagem: o gesto de filmar não como capricho estético, mas puramente como testemunho: a câmera ali, diante do deserto, diluindo-se pelo infortúnio em registro abundante, resistente, incendiário… Kamal Aljafari tão somente – e COM HASAN EM GAZA – transforma fragmentos de uma câmera tremida em rito de ressurreição, tais fitas tremidas, hesitantes, ágeis para não serem apreendidas, ali, revelando essa Gaza que talvez não mais exista, mas cujo espanto se impõe com estrondo.
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A filmagem não devia surpreender em termos cinematográficos. Aliás não surpreende. Não há qualquer truque formal, nem deslizes de mise-en-scène, o que se vê realmente é a imagem crua (ou cruel?), senão o impacto da pura narrativa: a câmera, ali, em meio à escuridão, avançando de dentro de um carro nos mesmos artifícios que, outrora, Jafar Panahi o fez em TAXI TEERÃ, o mesmo claustro sobre rodas para esconder (ou lhes proteger?) do olhar da violência institucionalizada que ergue fronteiras como prisões. Online, surgem alertas: “você realmente está nos filmando?”, “pode filmar?”, e crianças, viúvas e desempregados se mostram diante da lente com fome (literalmente) de narrar sua dor: “filme os miseráveis”, “filme as viúvas”, “filme os desamparados”. O “não se preocupe… nenhum israelense verá isso” revela o silêncio e a cumplicidade da invisibilidade.
Então, segue-se o calvário filmico, as mulheres apontando ruínas, filhos esfomeados e ao longe, tanques adormecidos à espreita, enquanto o mar inacessível sugere algo que não se pode alcançar: a liberdade. Toda a projeção assim, como um cortiço a céu aberto, onde se ouvem tiros, morteiros, grilos… a vigília é interminável. E logo, como um coro distante, surge “Ah Law Teeraf”, de Nagat:
(Desejo que soubesses o quanto eu te amo
e sei que não sabes…
meu coração pulsa por ti…
ó meu amado… alma da minha alma…
fim de toda esperança…)
É outra corrente, doce, mas desesperada, como o sangue fluindo “docemente” na epígrafe. A canção e o registro convergem no desespero de um amor não reconhecido, uma terra que resiste no sopro da memória, embora insuficiente para alcançar o real. Essa colagem entre o ruído da devastação e a suavidade rasgada de um verso musical compõe a pulsação de um documentário que não flerta com o espetáculo, mas insiste em existir.
Não à toa, esse testemunho cinematográfico irrompa com ainda mais urgência em face dos anúncios mais recentes: o governo de Israel aprovou, em 8 de agosto de 2025, um plano para ocupar militarmente a cidade de Gaza, com evacuações forçadas e possível governança por administração civil alternativa, o que amplia a catástrofe humanitária já em curso. O desenrolar dessa ofensiva só amplifica o registro de um passado – esse filme -, aquele capturado por Aljafari em 2001 como advertência: seja nos filmes, no sangue da terra, o risco da erradicação já se encaminhava.
Talvez por isso, tal cinema não surpreenda como exercício estético, mas pela própria força da ação: em nos fazer enxergar o invisível, ouvir os ecos, lembrar aquele rio que corria “docemente” e cujo sangue hoje escorre por escombros. As vozes das mulheres, das crianças, o silêncio que precede os tiros, acabam por se entrelaçar com a melodia de Nagat e se torna recusa à efemeridade, sim, um canto de resistência em face das tentativas brutais de apagar toda uma existência. Então, obrigado Hasan, esteja onde estiver.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 68/100

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