


Ben Rivers nunca filmou para agradar. Filmou, sim, para andar, ou melhor, para nos fazer andar com os pés pesados, pegajosos, persistentes no pântano de suas imagens. MARE’S NEST, seu mais recente delírio em 16mm, é a prova de que, se Tsai Ming-Liang é o poeta das caminhadas infinitas, Rivers é o cartógrafo dos becos sem saída nessa jornada de passos sonolentos, onde até Lisandro Alonso ficaria entediado. A trama – se é que esse fiapo se presta a tal nome – segue Moon, uma garota que atravessa um mundo órfão de adultos. A primeira cena engana: uma tartaruga à beira da estrada, um carro destruído, uma criança. O que parece acidente é, na verdade, gênese: uma fábula sobre moléculas marinhas que, de bolha em bolha, evoluem em tartaruga ou menina. É o Big Bang segundo Rivers, ou talvez não.
Moon anda. Anda com a tartaruga (Jeffrey), anda entre pedras, anda pela névoa, anda pela praia. Anda com a resignação de quem carrega, no andar, todo o peso da linguagem de “The Word for Snow”, peça de Don DeLillo que aqui se infiltra como murmúrio de um mundo perdido. O recital infantil desse texto – sobre extinção, ansiedade e o colapso da memória -, parece ser o coração do filme ou tão somente um eco dadaísta, quem sabe? Fato é que Rivers filma essa leitura com reverência niilista, como se o ato de andar e o ato de dizer fossem incompatíveis.
Episódios se encadeiam como capítulos arrancados de um livro: Moon encontra três irmãs que falam sobre o tempo; um scholar e seu tradutor, com vento e neblina de fundo; uma comunidade de crianças que brinca com a solenidade de quem está reinventando a humanidade. Há um Minotauro infantil preso num labirinto — talvez a metáfora mais óbvia para o próprio filme. Cada cena é um corredor e cada intertítulo é um portão que se abre para outro corredor e Moon, sem destino, segue andando.
Quando Moon entra no passado, sim, em preto e branco, tocha na mão, atravessando a escuridão, ali encontra adultos petrificados, como se fosse a dica para nos dizer que o cinema (ou a história?) é feito de corpos fossilizados, congelados pela luz. É a única sequência (interessante?) de terror genuíno: não o terror dos monstros, mas o daquilo que a humanidade fez para se transformar em estátua. O filme, claro, não explica nada. Não quer explicar. Rivers quer que andemos com Moon até o deserto e o ferro-velho, onde o carro do início reaparece. Tudo se fecha em uma estrada circular. Jeffrey, a tartaruga, desaparece sem cerimônia — porque não há reencontros garantidos no vazio lúdico desse roteiro.
Se Tsai Ming-Liang faria Moon andar até o fim do mundo e Alonso a faria andar até o fim da paciência, Rivers a faz andar até o fim da linguagem. O andar é a única forma de resistência e, paradoxalmente, de rendição. O cinema experimental raramente se preocupa em dar ao espectador um destino; aqui, sequer nos dá a ilusão de que existe um.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 63/100

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