A Voz de Hind Rajab


Há um drama aqui, não apenas nA VOZ DE HIND RAJAB, em seu choro, sua aflição, sua agonia onipresente ao longo de toda a projeção, mas no fato de que, depois, o que resta é a fotografia de alguém que um dia existiu. A imagem como lembrança, homenagem ou tributo. E sim, pode até ser manipulativo, mas isso não nos exime do fato que Kaouther Ben Hania reconstitui com minúcia. Trata-se, portanto, de um filme que não apenas registra uma história, mas captura a falha humana, essa fratura ética, o ponto de não retorno em nossa relação com a imagem e com o sofrimento alheio. A diretora, já conhecida por tensionar os limites entre o real e a representação, opera aqui em um território ainda mais cruel: o de reconstruir, com rigor formal e desespero emocional, a tentativa de extração de uma criança de seis anos na Faixa de Gaza.

E o fator decisivo, como se pode antecipar, não é a “voz” da menina… é o momento em que essa voz, meio vaga, entrecortada, às vezes infantil demais para carregar tanto horror, ganha corpo por meio da fotografia. Tão somente uma imagem, um símbolo que sintetiza a violência que somente uma câmera poderia reproduzir, mas não aqui, não agora. Ben Hania sabe que as imagens não são inocentes e as guarda estrategicamente para um fim dramático (literalmente) e sim, elas são deliberadamente manipuladas, não para fabricar comoção falsa, mas para reativar essa comoção que já deveria existir e que a repetição das tragédias insiste em anestesiar. Não por acaso, a diretora constrói o filme como um palimpsesto entre encenação e registro bruto, como se afirmasse: vejam, não há escapatória, não há como desver.

A montagem, então, opera como um implante emocional, no qual cada fragmento de arquivo real não surge como reforço ilustrativo, mas como interrupção. Primeiro a fotografia, um colapso dentro do próprio filme. Depois, algo ainda mais brutal donde a ficção é arrancada do espectador no exato momento em que ele começava a se acomodar. Os planos reais entram em cena, a ambulância surge para nos tirar o chão, o ar, o corpo inteiro. Um lembrete de que aquela narrativa não é apenas cinema, mas resto. Escombro. Documento.

E o que sobra não é pouco porque tais imagens carregam o peso específico da catástrofe: são trêmulas, atravessadas por poeira, gritos, escuridão. São aquilo que permaneceu depois que tudo foi arrancado. A prova material de que a história de Hind Rajab não foi exceção, mas uma síntese cruel de inúmeras infâncias fraturadas, interrompidas, esmagadas entre fronteiras e estratégias militares.

Quando a diretora expõe tudo isso, não o faz apenas como denúncia, mas a partir de uma ética do desespero, uma panfleto que não se esconde, não disfarça o gesto. O desejo é implorar, sufocar, esvaziar o espectador de qualquer zona de conforto. Fazer de nós cúmplices involuntários do horror, para que não possamos mais alegar desconhecimento. E, no fim, não há catarse, nem resolução. O que se impõe é justamente o oposto: um estado catatônico diante das imagens em movimento. Uma suspensão. Uma paralisia lúcida. Um cinema que não se interessa em “representar” a realidade, mas em criar fissuras por onde o pensamento crítico irrompe. E, diante dessa irrupção, não há conclusão possível que não seja – também ela – um pedido de ajuda. Aceite ou não.

RATING: 84/100

TRAILER

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REVIEW · TIFF · VENEZA · SAN SEBASTIAN · RIO

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