

Antes de tudo, era escuro. Não havia luz, nem contorno, nem tempo organizado. Então, alguém começou a brincar… luz, câmera, som. A criação se dá como jogo (um JOGO DE CENA?) e é nesse gesto inaugural que A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO surge em nossos tempos, como cinema que nasce da brincadeira, mas nunca a trata como coisa menor. Eliza Campai filma – e literalmente – uma cápsula do tempo enterrada em Guaribas, mas não um tesouro feito para o futuro e sim uma máquina instável, operada por meninas, que gira para trás e para frente ao mesmo tempo. Elas filmam, perguntam, encenam, inventam. Reencenam a si próprias e às mulheres que vieram antes. São atrizes de suas memórias possíveis. Se existe um nome para isso, talvez seja mesmo um meta-documentário: um filme que sabe que está sendo feito e que transforma esse saber em matéria viva, lúdica, política.
Muito Eduardo Coutinho, a verdade aqui não mora na distinção entre fato e encenação, mas no intervalo entre um e outro. As meninas do sertão encenam conflitos adultos – casamento, trabalho, religião, medo, menstruação, sexo – sem que isso lhes roube a infância. Pelo contrário: é justamente porque brincam que conseguem tocar em assuntos tão grandes. A encenação vira ferramenta de pensamento.
Criadas sob forte presença evangélica, elas misturam mitologia bíblica, TikTok, funk, cantiga de roda, culto, recreio. O sagrado e o profano convivem na tela. Há carreta-furacão cruzando o sertão, cores vibrantes contrastando com a aspereza da terra e com as rugas de quem viveu “só para não morrer”. As mães e avós contam um passado marcado pela fome, pela ausência, por uma vida que mal se sustenta. As meninas escutam como quem acessa um arquivo antigo da máquina: um tempo em que não havia água, nem comida, nem escolha. E ao ouvir, já transformam.
A tal máquina do tempo, então é mero dispositivo de afeto e consciência histórica, donde voltar ao passado não é nostalgia, mas uma tentativa de entender de onde se veio; Ir ao futuro não é fuga, mas um lúdico exercício de imaginação. Essas meninas são a primeira geração que sabe que nasceu com “vantagens”: comer, estudar, brincar. E isso muda tudo porque registra um ponto de virada com delicadeza rara, um grande jogo coletivo. Nada é imposto de cima. As cenas nascem naturais entre proposta e recusa, entre ideia adulta e imaginação infantil. Quando as meninas dizem que a sugestão da diretora é ruim e oferecem outra, o cinema acontece e Big Bang!
E por tal jornada, vemos a infância como território que já está se perdendo no instante em que é vivido. Daí uma urgência, a necessidade de registrar o que se vê: o filme não tenta congelar o tempo, mas brincar com ele antes que escape. O que vemos é uma cápsula frágil, feita de vozes, corpos, jogos e perguntas grandes demais para respostas simples. Uma máquina que não promete salvar ninguém, mas que ensina a imaginar futuros desejáveis e que nos lembra, com simplicidade luminosa, que o tempo não é só aquilo que passa, mas também algo que se inventa enquanto se brinca.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 70/100

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