

Pode ser pipa, papagaio ou gavião, depende do vento, não importa. O que importa é que Allan Deberton se encanta por esse menino e, junto dele, empina uma narrativa como quem corre contra o vento num campo aberto: primeiro testando a linha, sentindo a resistência do ar, depois soltando aos poucos, até perceber que já não é preciso tanta força porque a pipa-filme se sustenta sozinha no céu. FEITO PIPA, a história de Gugu, nasce desse gesto simples e preciso, deixando subir aquilo que o mundo insiste em puxar para baixo. Dá vontade de chamar o protagonista de “criança viada”, sim, no sentido mais carinhoso e político da expressão, um garoto queer antes mesmo de saber nomear isso, todo feito de brilho, trejeito, imaginação e desejo incontido de ar, de altura, de liberdade.
Gugu corre no campo de terra batida, chuta bola, mas seu corpo já aponta para outro lugar. Enquanto os outros meninos disputam espaço no chão, ele parece sempre negociar com o céu. Seu jeito, seu olhar, sua pose fazem dele uma pipa colorida em meio a um bando de papagaios padronizados. O filme entende que a infância queer é isso: um fio esticado entre o que se é e o que esperam que seja, com o risco constante de rasgar, mas também com a possibilidade de voar mais alto.
Na outra ponta, é a avó Dilma quem segura esse carretel com sabedoria e Teca Pereira o faz num espetáculo íntimo. Como outrora Marcélia Cartaxo em PACARRETE, ela é dessas figuras que parecem ter nascido sabendo que amar é soltar a linha na hora certa. Babilônica, extravagante, quase drag em sua exuberância, a velha reconhece a criança sem precisar enquadrá-la. Com ela, o menino encontra abrigo, apoio. Sua casa vira quintal aberto, espaço onde a pipa pode cair, levantar, enroscar e voltar a subir. Em contrapeso, o pai vivido por Lázaro Ramos representa a mão tensa demais, que teme perder o controle do fio. Não é um vilão, mas alguém que aprendeu que educar é segurar firme e não percebe que, assim, corre o risco de impedir o voo.
Há nesse filme uma vibração que lembra BILLY ELLIOT, mas filtrada pelo sol do Nordeste e pela delicadeza de quem prefere o gesto miúdo ao grande discurso. Assim como no clássico britânico, existe um corpo que quer dançar num ambiente que não sabe muito bem o que fazer com isso. A diferença é que aqui a dança raramente se concretiza. Ela fica no quase, no ensaio, no balançar do corpo depois do gol, como pipa que ameaça subir mais alto, mas ainda respeita o vento do dia.
O sertão que Deberton filma não é seco de imaginação. Ao contrário: é um território onde pipas riscam o céu, onde o caminhão-pipa cruza a paisagem, onde a água que some revela ruínas e memórias submersas. Tudo no filme fala de algo que estava ali, desapareceu e, de repente, reaparece como a torre da igreja, como as lembranças da avó, como a coragem de Gugu. A própria memória funciona como linha frágil, que vai se desgastando com o tempo, ameaçando romper, mas não se rompe, ainda está ali e no gesto mais bonito, senão uma dança que parecia improvável. Ao som de “Time After Time”, menino e avó rodopiam juntos, leves, cúmplices, como duas pipas que passam a dividir o mesmo céu, assim como celebração e pacto silencioso mesmo, um acordo de afeto, liberdade e despedida. FEITO PIPA entende que crescer, amar e lembrar fazem parte do mesmo movimento: aprender quando segurar a linha, quando soltar e aceitar que voar inclui o risco de se perder no horizonte.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 72/100

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