

Entre IVÁN & HADOUM, o que está em jogo nunca é apenas “quem se é”, mas como se aprende a amar sendo “quem se é”. O filme de estreia de Ian de la Rosa parte dessa experiência íntima, sim, a de uma pessoa trans narrando uma história de amor atravessada pela transgeneridade, para chegar a algo mais amplo e, paradoxalmente, mais simples: o amor como espaço universal de reconhecimento, refúgio e transformação.
Não há, portanto, tempo para manifesto ou didatismo. De la Rosa se recusa à qualquer pedagogia identitária que tantas vezes aprisiona o gênero do cinema queer em explicações excessivas. A identidade de Iván & Hadoum aparece no modo como os personagens se observam, nas hesitações, nas pequenas concessões que fazem para permanecer juntos. Iván não é definido apenas pela condição trans, assim como Hadoum não é reduzida ao papel de “garota que ama um trans”. O filme vai além desses rótulos, senão um processo em curso, algo que se descobre naturalmente.
Tal recusa pelo conflito espetacular é uma escolha ética e estética: as tensões que atravessam o casal não vêm de grandes antagonistas ou violências explícitas, mas das pressões cotidianas: do trabalho, das expectativas familiares, das inseguranças internas, a própria dificuldade de imaginar um futuro possível. Amar, aqui, não é um gesto heroico, mas um exercício contínuo de negociação com o mundo donde cada pequena decisão carrega o peso de uma vida inteira. A encenação acompanha essa lógica. A câmera permanece próxima, quase colada aos corpos, como se quisesse respirar junto com os personagens. Não se trata de fetichizar a intimidade, mas torná-la linguagem. O desejo não é verbalizado, mas circula nos olhares, na forma como as mãos hesitam antes do toque, na maneira como os corpos se acomodam um ao outro. Um conto de amor, como tantos outros, onde o sentimento se antecede as palavras e talvez sobreviva apesar delas.
Há algo de profundamente político nessa aposta pelo íntimo. Ao situar a revolução no plano do afeto, o texto desloca a discussão identitária do campo do confronto direto para o da experiência vivida. O filme sugere que aprender a amar (a si e ao outro, não importa) é um processo tão complexo quanto qualquer transição social ou corporal. Iván precisa reaprender a se ver para além das expectativas que o cercam; Hadoum, por sua vez, precisa compreender que amar também é aceitar não ter todas as respostas. Juntos, eles constroem um santuário provisório, frágil, mas real, onde outra vida parece possível.
Assim, Ian de la Rosa filma não para convencer, mas para compartilhar uma (a sua?) experiência. E talvez seja isso que torne sua película tão tocante. Em vez de nos dizer o que pensar sobre identidade, sua história nos convida a sentir e a lembrar que, no fim, amar é sempre um ato de reconhecimento mútuo, um salto no escuro que só faz sentido quando alguém está disposto a cair junto.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 72/100

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