

Em PARADISE, Jérémy Comte constrói uma narrativa que avança às cegas, guiada pela ausência de um pai e a promessa frágil de um reencontro. Desde a sequência inicial, um incêndio no mar, fumaça negra cortando o céu noturno, corpos saltando de um navio em chamas, o filme estabelece um princípio fundamental: procurar alguém significa atravessar zonas donde a visibilidade é mínima e a verdade nunca se aprende completamente.
O filme se desdobra entre o Canada e Gana, dois pontos geográficos distantes que o filme aproxima pouco a pouco. Em Accra, acompanhamos Kojo, um garoto moldado por trabalho duro, promessas de dinheiro rápido e a súbita perda do pai no mar. Em Quebec, Tony cresce cercado por perguntas, tentando decifrar os afetos da mãe e a sombra persistente de um homem que nunca conheceu. As duas trajetórias se desenvolvem de forma independente no início, mas o vazio que carregam acaba as aproximando inevitavelmente.
Comte estrutura o relato em lacunas, suposições e histórias que circulam antes de se confirmarem. A procura se desloca entre continentes e pontos de vista, atravessando memórias herdadas, relatos incompletos e figuras que nunca se deixam ver por inteiro. Em cada lugar, a ausência funciona como força organizadora, empurrando seu personagem a preencher o vazio à sua maneira. O texto observa como essas narrativas paralelas, sustentadas por expectativa e necessidade, acabam se aproximando, revelando que aquilo que começa como imaginação pode ganhar peso suficiente para reorganizar afetos, escolhas e destinos.
Visualmente, o filme aposta numa encenação paciente, alternando o azul profundo do mar, a poeira quente das ruas ganesas e a frieza urbana do Canadá. A trilha sonora se marca por sons que lembram buzinas de navio e correntes de água, o que reforça a ideia de deslocamento constante. O suspense se mantém em compasso de espera. Espera por uma resposta, por uma confirmação, por um encontro que talvez nunca venha a se concretizar.
Há, no entanto, desequilíbrios perceptíveis no argumento. O arco de Gana recebe maior atenção e densidade dramática, especialmente na infância e na relação com o pai. Já os personagens do núcleo canadense surgem mais condensados, apresentados por informações diretas que nem sempre encontram tempo suficiente para se desenvolver. Tal assimetria enfraquece o impacto de algumas decisões, sobretudo quando o relato se aproxima do desfecho e exige uma carga emocional mais distribuída.
Ainda assim, Paradise sustenta uma ideia potente. O tal “paraíso” surge como construção imaginária, uma narrativa pessoal criada para tornar a solidão suportável. Seja no Canadá ou em Gana, os personagens se agarram a versões possíveis de felicidade, mesmo sabendo que elas podem ruir a qualquer momento. O próprio diretor já comentou que o ponto de partida do filme nasce de uma experiência pessoal com golpes afetivos, o que ajuda a explicar a recusa em apresentar vilões claros. O interesse está menos no crime e mais no vazio que o antecede.
Ao final, quando passado e presente se encontram numa imagem circular que remete ao incêndio inicial, o filme sugere que certas buscas nunca se encerram. Elas apenas mudam de forma. PARADISE permanece como um primeiro longa ambicioso, visualmente forte e emocionalmente irregular, mas atento a uma verdade desconfortável. Em um mundo atravessado por desigualdades globais, muitas vezes o preço da solidão parece maior do que o custo de uma mentira compartilhada.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 69/100

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