

O que é? é segredo… é NOSSO SEGREDO que Grace Passô conta no pot-pourri de caravana, talismã ou bancarola, cinema partindo de luz donde tudo começa ofuscante: a imagem se oferece branca, quase lavada, como um pensamento ainda em formação. Vozes em off falam de perdas com delicadeza disarmante, “perdi minha avó”, “perdi meu pai”, frases ditas como quem testa o peso das palavras no ar. A saudade aparece cedo, não como dor, mas somente presença cotidiana, herdada, incorporada. Algo que vive junto, mesmo sem nome. A fotografia luminosa amplia essa sensação: o luto aqui surge primeiro como suspensão, um respiro, um sorriso habitável.
A câmera então se desloca. Corre pela estrada, atravessa o portão, entra numa casa que parece vazia e, ao mesmo tempo, saturada de vestígios. Fotografias, desenhos infantis, cartas na geladeira, discos empilhados, objetos que permanecem quando alguém já não está. Grace Passô filma a memorabília com atenção afetiva, como se cada coisinha carregasse uma carga mínima de vida. O espaço doméstico se organiza como um arquivo sensível, um território onde o tempo não avança e donde todos ali parecem viver num estado intermediário, presos à casa, ao passado, à repetição dos gestos. A sensação é de limbo: gente viva atravessada por uma convivência constante com o que já partiu.
Com eles, algo, alguém, o invisível se comporta como presença errante. A tela se aproxima, recua, observa de canto, desliza entre os corpos sem anunciar intenção. Há algo de espectral nesse movimento, como se o olhar que organiza o filme pertencesse a alguém ausente. O pai morto parece continuar ali, não mais lembrança, mas como ponto de vista móvel. A encenação (e montagem) sustenta essa hipótese silenciosa: planos que chegam tarde, saem cedo, observam sem intervir. O filme inteiro se deixa atravessar por essa sensação de visita contínua.
E a história? Que história? O que se vê é um fiapo de sons, gente e mundano… conversas fiadas, histórias contadas pela metade, afetos que circulam em pontas soltas. O menino, Tutu, percorre a película com curiosidade tranquila. Brinca, molha as plantas, pisa na lama, pinta o rosto com terra. Sua relação com o espaço mistura imaginação e percepção, como se o luto fosse algo que se aprende com o corpo antes de se entender com palavras. Ele faz perguntas simples (sobre a vida? sobre a injustiça?) e tais pensamentos ecoam com densidade inesperada. E o resto? “O tempo ajeita as coisas” e cada personagem, à sua maneira, apenas vive, vai vivendo, lidando com a perda do seu jeito: introspecção, trabalho, fuga, invenção.
É nesse cotidiano aparentemente leve que algo começa a se adensar. Pequenos sinais surgem: sons fora de campo, rachaduras, vazamentos, marcas no chão. A casa, antes apenas repleta de objetos, passa a acumular peso. A atmosfera se torna mais espessa, quase física. O luto ganha volume, ocupa espaço, exige passagem. A metáfora paquidérmica ainda permanece fora de quadro, mas sua presença se insinua como massa invisível. Algo grande demais para ser ignorado divide o mesmo teto com a família.
O que é, é segredo, mas funciona como metáfora do processo. O que se vê, é o corpo imaginado que carrega peso, densidade, lentidão. Um ser que vive entre dois elementos, água e terra, assim como o luto vive entre memória e ausência. Ele ocupa o sótão como o luto ocupa a vida: acima, fora do campo imediato, mas determinante. A cada passo, a cada ruído, a sensação de sua existência reorganiza o espaço emocional da casa. O filme não precisava mostrá-lo para torná-lo real, mas o faz e tal abordagem aproxima NOSSO SEGREDO de SOMBRAS DA VIDA e de TODOS OS MORTOS, obras que tratam o luto com a mesma permanência, mas Grace ainda possui um adendo: ela filma no tom (e melancolia?) de uma “classe média blues”
Ao final, a luminosidade inicial já não existe da mesma forma. A imagem carrega agora matéria, espessura, lama. O luto deixou de ser apenas lembrança e se tornou corpo. O segredo do sótão permanece, pesado, incontornável. Grace Passô tão somente constrói, em sua estreia, um filme que entende a saudade como entidade viva, algo que cresce, ocupa, (nos) transforma. Um cinema onde o tempo não cura, apenas acomoda e donde viver significa aprender a dividir a casa com aquilo que nunca vai embora.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 75/100

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