




Parece comum – e de certo modo é -, mas olhar para essA IRMÃ MAIS NOVA da forma como Hafsia Herzi a enxerga e filma é um gesto de rara delicadeza. É o olhar de quem conhece por dentro a dor e a ternura de habitar duas margens: a da fé e a do desejo, a da tradição e a da descoberta. Assistir a esse filme é como folhear o diário secreto de uma jovem que tenta se escrever no mundo enquanto o mundo insiste em apagá-la. E, de fato, a história, o cinema, o conflito é real: livremente inspirado no romance homônimo de Fatima Daas, o filme soa como um aceno à autora, um ato de assumir a escrita como confissão, oração ou grito.
E dói. Porque a protagonista, interpretada pela inquietante Nadia Melliti, não apenas carrega o nome da autora: traz também sua hesitação, a culpa, o fascínio por um mundo que parece sempre um pouco distante demais. Cada cena (ou episódio?) é como um capítulo do livro: fragmentos de uma identidade que tenta se recompor a partir do que resta. Entre o subúrbio e o centro da cidade, entre a mesquita e as boates, entre a língua da mãe e as palavras da rua, essa jovem busca um ponto de ancoragem num universo que não lhe cabe. À diretora, cabe filmar esses deslocamentos em tom quase documental, abrindo espaço para que tudo respire, extravase ou apenas deixe margem para a conversa.
Se Fatima Daas escrevia “Sou muçulmana, sou homossexual, e às vezes não rezo”, Herzi transforma essa contradição em imagem, em corpo, em dúvida. O rosto de sua atriz se torna um mapa desses conflitos: olhos que carregam vergonha e desejo, devoção e pecado. Há momentos em que a câmera se aproxima tanto que parece tentar decifrar o que ela própria não compreende, afinal, como é crescer em um ambiente que te ensina a calar e, ao mesmo tempo, te pede para ser alguém? E é essa tensão que atravessa toda a projeção, nunca oferecendo respostas, apenas perguntas dolorosamente humanas.
O roteiro evita, com lucidez, o exotismo com que tantas vezes o cinema retratou jovens muçulmanas. Não há fetiche, nem lição de moral. Há a crueza de uma vida que se move entre dois mundos, sem pertencer inteiramente a nenhum. A identidade aqui não é território fixo, mas um campo de batalha. E a direção, consciente disso, combina naturalismo e introspecção poética, alternando o cotidiano banal – o trabalho, a família, os rituais -, com lampejos de uma sensorialidade quase mística. É nesse espaço entre o visível e o indizível que a sexualidade da protagonista se revela: não como bandeira, mas puramente pulsão vital.
No fim, tal cinema é menos sobre uma jovem muçulmana homossexual e mais sobre a dor universal de quem tenta existir fora das molduras impostas. O filme não busca redenção, talvez um pouco de lucidez, talvez um ato de fé na contradição, ou mesmo a crença de que é possível ser plural mesmo em um mundo que exige pureza. Ao iluminar esse conflito com tamanha sensibilidade, Herzi oferece tão somente um retrato sincero de uma juventude que ainda luta para dizer “eu”, e assim acreditar nesse pronome como forma de resistência.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 74/100

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