

É muito soul, fun soul, funk soul, trem soul, bom demais da conta, sô! André Novais Oliveira ensaia seu LOVERS ROCK, diria Steve McQueen; flerta com CONTATOS IMEDIATOS DE TERCEIRO GRAU, diria Steven Spielberg; e o faz do seu jeito, com alma mineirês, serenata de viola, bailinho de Tonin Black, calça xadrez e casaco suede. SE EU FOSSE VIVO… VIVIA me deixando levar por tal (Absolute?) cinema, aceitando o convite desse afeto dançado, amando, sorrindo, assim pela história que embala primeiro o corpo, depois o olhar, até que a gente já não perceba mais que foi abduzido.
O baile dos anos 70 toma conta do filme assim, sem alarde, mas cheio de força. É ali, uai, que o negócio acontece. Corpo com corpo, soul batendo no peito, o grave fazendo tremer o chão e ajeitar o passo. Ninguém precisa explicar nada. Basta ver, dançar junto, sentir o tempo e o sorriso de canto. É nesse compasso que o encontro se ajeita, com calma e firmeza, do jeito que mineiro sabe fazer. O amor não chega gritando, vai chegando, dançado, no miudinho, mas com presença danada de grande. E é quando a noite já parece completa que os vagalumes surgem… Pontinhos de luz espalhados no escuro, piscando miúdo, quase brincando com a vista. Um clarão breve se forma ali, bonito demais para ser explicado, desses que a gente sente antes de entender. Em coisa de quinze minutos de projeção, o tempo resolve dar um pulo grande. O que era começo vira lembrança, o que era promessa vira vida inteira. Quando a imagem retorna, já se passaram cinquenta anos. O encanto do baile ficou lá para atrás e agora reaparece em rotina, em cuidado, em amor que resistiu ao tempo porque soube nascer daquele brilho rápido, quase secreto, que iluminou tudo por um instante só.
Nesse ponto, o texto se achega com AMOUR, de Michael Haneke, e VORTEX, de Gaspar Noé, como quem puxa uma cadeira e chega mais perto. São histórias que também acompanham casais envelhecendo com o tempo, com o corpo que pesa e a memória que começa a se soltar. No entanto, Novais prefere outra cadência, outra forma de permanecer. Onde Haneke e Noé se inclinam para o desgaste mais áspero, aqui surgem assombro manso e uma curiosidade tranquila diante do fim. A velhice ganha forma de casinha de quintal, dessas com caquinhos no chão, pequena, frágil, mas ainda assim um lugar onde se mora, feita de beijinhos na testa e na bochecha.
Curioso, mas a ficção (científica?) chega de fininho, sem bater na porta, como um ser que sempre esteve ali, só esperando a hora de aparecer. Algo estranho atravessa o corpo da mulher, sinal que mistura cansaço, fragilidade ou peso manso do tempo passando. A memória começa a falhar de leve, o espaço fica meio fora de lugar, o caminho de casa já não se deixa achar com facilidade. A abdução muda de tom. O que antes brilhava feito promessa agora soa como despedida dita baixo. Amar por tantos anos vai cobrando seu tanto. O dia a dia vira pergunta. A velhice ganha um ar esquisito, quase de outro mundo. Amar alguém por uma vida inteira se parece com ir sendo levado pra fora de si, devagarinho, até a gente já não saber direito onde termina o corpo do outro e começa o próprio.
O final? Não existe, não cabe, foi abduzido… o velho observa a Terra de longe como quem reconhece o próprio passado virando lembrança. A mulher fica, se perde, talvez já tenha ido. O sentido não se entrega. O gesto final sugere que amar envolve aceitar esse sumiço, aceitar ir junto, mesmo sem saber para onde.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 74/100

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