Deus é Mulher e Seu Nome é Petrunya


Por Eduardo Benesi

Em DEUS É MULHER E SEU NOME É PETRUNYA, o desamparo sócio-existencial de uma mulher encontra uma curva edificante através de um golpe do acaso, algo que reconfigura não só um entendimento de propósito da protagonista como abre filiais de debate bastante importantes em termos de ruptura de gênero. A abordagem da resistência feminina concede pólvora a um confronto paralelo entre religião e machismo. É uma história que pede acréscimos feministas e desperta ruminações crônicas.

Repare em como os conflitos esbarram em incoerências que se desdobram em novos conflitos. Uma mulher não-religiosa, fora do padrão, desempregada e simpática ao comunismo invade (e vence) uma competição cristã realizada exclusivamente entre homens. A legitimação dessa vitória entra em uma série de contestações midiáticas, religiosas e jurídicas. A revolta dos homens que perderam em um primeiro momento se debruça no conceito de regra pré-estabelecida mas sempre com apontamentos morais alinhados a religião, ao sagrado, embora curiosamente a única entidade que valida a vitória de Petúnia é justamente o Padre que estava de juiz comandando o evento. Começa a ficar bastante claro que a contestação geral é muito mais de ordem misógina do que atrelada ao pacto recreativo.

Coloco um ponto de atenção na própria noção de ‘ruptura de regras’ enquanto argumento de invalidação para o êxito de Petúnia. Ora, um dos principais recursos de opressão do homem em relação a mulher, principalmente em situações envolvendo agilidade e força física é inferir o combinado ou subestimar as capacidades femininas. Se existe uma constante dentro da covardia masculina é esse pré-cálculo arrogante e falocêntrico que legitima a coragem impostora, essa que chuta um cachorro presumindo que ele já está morto. O sujeito supõe essa vantagem e entra em um jogo intuindo que vai ganhar. Sendo assim, não interessa ao patriarcado um emblema de transgressão feminina que ameace simbolicamente o seu lugar de privilégio. Na narrativa a religião acaba servindo de cortina ao orgulho ferido dos machos perdedores sem que isso seja formalizado, os fatos vão se agrupando e dando luz ao paradoxo.

A partir de um revezamento de símbolos avistamos importantes armadilhas e eixos de elaboração. Se para Petúnia aquela cruz não possui significado religioso, o que faz com que ela insista em guardar a cruz (o prêmio) consigo? Fica evidente que a insistência da protagonista está calcada em outro valor simbólico aquém da religião, há um propósito político em jogo e ela está muito ciente disso. Nesse jogo de atribuições um objeto tão sagrado quanto banal entoa uma guerra de narrativas e talvez o lobo vença o cordeiro, mas em algum momento você vai se perguntar: quem é o lobo?

RATING: N/T

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REVIEW · BERLIM · MOSTRA SP

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