


Seria uma santa punk? Uma madre do metal? Uma mulher que, antes de erguer templos de caridade, precisou demolir todos os claustros da própria alma? Não… isso é apenas MADRE aos olhos de Teona Strugar Mitevska, ou melhor, o vitral fervoroso de Noomi Rapace em fé posta à prova. Na tela, a freira Teresa, ainda não Teresa de Calcutá, caminha sobre brasas: uma semana de vigília, sete dias de provação, sete marteladas no claustro da alma donde cada gesto é uma via-crúcis; cada dúvida, uma chaga; cada silêncio, uma prece ou castigo. Um rosário de paradoxos onde se filma, não a santa sorridente dos cartões postais, mas a mulher enclausurada na própria carne, ela jamais canonizada pela Igreja, mas sim pela contradição.
O filme é construído tal qual uma cela: austero, rígido, reduzido ao essencial. O olhar encontrando linhas retas, paredes nuas, véus pesados… de quase um minimalismo monástico que ameaça sufocar, mas, diante da aridez da imagem, o ouvido é traído pelo mais profano: o rock pesado que irrompe do nada, ecoando entre grades da clausura como se o demônio tivesse encontrado um jukebox na sacristia. Do nada, explode “Hard Rock Hallelujah”, hino blasfemo e libertário, e a câmera se deixa atravessar pela colisão dos contrários: o convento pulsando como casa de shows, sem o pudor de sujar a iconografia católica nesse riffs elétricos, como se fosse uma guerra declarada aos hinos santíssimos.
Mitevska, como outrora Alexandr Sokurov no retrato dos tiranos (MOLOCH, TAURUS, O SOL, FAUSTO), assim tensiona aos poucos o mito: não há doce santidade aqui, apenas dureza. Sua Madre não se mostra como relíquia, mas como um general de forte e é nesse ponto que Rapace se entrega a um ato de transfiguração. Longe de qualquer maneirismo piedoso, ela encarna uma Teresa ambígua, corpo rígido, olhar inquieto, capaz de ser, ao mesmo tempo, comandante e penitente. Jamais uma santa, mas uma mulher contraditória, autoritária, sedenta de liberdade. E não por acaso outra música invade os créditos: “Indies or Paradise”, de Anna Calvi, para que a narrativa se vista desse desejo enquanto o feminino rasga a liturgia: “Do you want to be free?”. Não aqui, a liberdade é sempre pecado.
Ao público, resta se ajoelhar diante do altar instável dessa câmera, ora incenso, ora cilício. O que se vê é a crucificação íntima, uma loucura de fé diante do desejo de comando. Uma missa e, ao mesmo tempo, uma missa negra; uma oração murmurada em rock e êxtase, enquanto se faz a contagem regressiva, não para a beatificação, mas para a forja da santa em ferro e fogo muito aquém da luminosidade serena que se conhece, e muito além no território rude das escolhas, da disciplina e da aspiração de poder.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 69/100

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