




É na metade final de HAMNET, quando desce a mortalha, o mundo se silencia e o sopro se suspende, é nesse instante que nasce Orfeu. E ali, no cinema, tudo se cumpre: o grito, o rasgo, o esplendor, senão o martírio de Jessie Buckley como outrora Carl Theodor Dreyer filmou Maria Falconetti. Chloé Zhao filma apenas o espírito: o chamado de Eurídice ecoando entre as colunas sombrias de Hades. Faz isso pelo chiaroscuro, esse verso visual que convoca e nos desprende do corpo, frames tecidos do ar que nos falta, do pulso que falha, da vertigem que arrasta o ser (ou não ser) ao abismo. E então, quando finalmente o ator exausto repousa os gestos, e o público estende as mãos ao palco em silêncio, todos ali catatônicos em um aplauso de brisa, é nesse instante que percebemos que não houve tragédia, apenas uma gloriosa apoteose.
Se Orfeu nasce ali, é porque a diretora entende o mito não como alegoria distante, mas um gesto primordial, senão o impulso humano de descer ao escuro para resgatar aquilo que se ama. HAMNET se estrutura nesse movimento descendente. Sua protagonista não avança… ela constantemente retorna, volta ao corpo, à terra, às raízes, às memórias que insistem em pulsar mesmo quando a linguagem falha. E, como Orfeu acredita, talvez apenas por instinto, que o amor pode suspender a morte por um breve intervalo. E é nesse intervalo que o roteiro habita.
O que se vê, portanto, é um cinema do pesar, um filme-velório em que cada plano testa os limites entre permanecer e olhar para trás e donde a encenação conscientemente se recusa ao melodrama, embora o luto esteja onipresente. Diferente de Eurídice, que desaparece de uma vez, Agnes se dissipa aos poucos, ali fragmentada em gestos mínimos, sons distantes, naquilo que já não pode ser tocado. O gesto é radical, o cinema idem. Aqui, o mito não promete retorno; o submundo não devolve o que foi levado… o que Zhao oferece é além: a metamorfose. Uma dor que não se resolve, mas se transforma, transcende e enternece, isso para além da tela, do espaço, do (im)possível. Não como cura, mas permanência sensível. Agnes não recupera o filho, afinal, mas aprende a conviver com sua ausência.
Talvez, só talvez, seja a trilha de Max Richter o fio invisível que nos guia na travessia – ali, o público, os personagens, a emoção -, tal a melodia que suspende, como se cada acorde fosse um passo hesitante pela escuridão. Uma música de vigília, assim como o canto de Orfeu para não sucumbir ao silêncio absoluto e donde a palavra já não é necessária. Um gesto de sobrevivência, portanto. E então, há o teatro, esse segundo mundo dentro do mundo para o mito finalmente se completar: Shakespeare, aqui menos autor, mero coadjuvante, transforma a perda em linguagem, o luto em poema. Não para (se) explicar, mas para suportar. O palco então surge como o único lugar donde voltar para trás não signifique condenação. Eurídice não retorna à vida, assim como Hamnet não retorna à vida, mas permanecem vivos no ato de serem narrados.
E ao fim, o filme se encerra como o mito sempre se encerra: sem redenção, tão somente (uma) consciência. E nós, o público, copiosamente em lagrimas, compreendemos que o verdadeiro erro de Orfeu não foi olhar para trás, mas acreditar que poderia atravessar o amor ileso. O filme aceita essa falha como humana. Sim, amar é perder. Criar é insistir apesar disso. E o cinema, quando atinge esse grau de depuração espiritual, não serve para nos salvar da morte, serve para nos ensinar a caminhar com ela.
RATING: 92/100

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