

SORRIA… sorria ou seja expulso para a overdose coletiva, senão os abraços do Santo Menino: THE HOLY BOY, o messias, o filme de Paolo Strippoli, o comprimido-horror disfarçado de fábula: um entorpecente narrativo que se dissolve na boca e escorre pelos olhos, um suspense de comuna que mascara o desespero sob a liturgia da alegria perpétua. Aqui, todos sorriem como bonecos ensaiados, todos abraçam como se a carne fosse sacrário e cada gesto coreografado por uma substância invisível, um psicotrópico social que transforma a tristeza em tabu (ou júbilo em moeda). E por trás do verniz colorido, vemos assim as rachaduras, as flores murchando em câmera lenta, as paredes vibrando com a respiração de angústia, o sorriso falsamente estampado nos lábios dos habitantes.
Matteo, o menino-salvação, é o epicentro desse êxtase programado: um ídolo adolescente de cabelos partidos ao meio, negro de um lado, branco do outro, como se fosse a própria imagem química da contradição. Seu abraço funciona como anestesia: retira a dor, silencia a perda, suga a sombra, mas tal alívio tem um gosto de ansiolítico mal prescrito e, como toda droga, pede mais, sempre mais. O povo da cidade – o tal Vale do Sorriso do título italiano – assim não vive, se consome. Não reza, ingere. Não crê, depende. Matteo é seu messias, mas também seu estupefaciente.
Sergio, o professor estrangeiro, chega como contraponto. Na busca por um novo começo, se encontra no meio do delírio, percebendo em cada sorriso esse sequestro, em cada abraço uma renúncia. Sua própria melancolia o arrasta para esse abraço proibido, como quem sabe que a cura é também maldição. A relação entre ele e o menino é meio paternal, meio farmacológica: um precisa do outro para manter o delírio funcionando — paciente e fornecedor, adicto e substância.
Strippoli filma essa alucinação com a clareza turva de um pesadelo enevoado. O vale parece feito de cartões-postais em decomposição, cenário que oscila entre pastoral e psicótico. Não há gritos, não há sangue, apenas a pulsação constante de um horror psicológico, muito sutil, que vibra na insistência dos risos.
Afora o horror (que horror?), o que se vê é uma parábola lisérgica sobre o perigo de um mundo que proíbe a dor e canoniza a euforia. Uma missa com cheiro de anestésico, onde o abraço é sacramento e o messias, mero traficante de alívio. Ao público resta sair atordoado, ou guardar uma pergunta: o que sobra de humano quando até a tristeza, última verdade possível, é confiscada como contrabando?
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 71/100

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