Le Pays d’Arto


Um trem corta os campos da Armênia. Dentro, uma mulher francesa observa o mundo passando pela janela: meninas sorrindo, um soldado calado, galinhas entre as malas, e, ao fundo, um eco de melancolia. Com este primeiro movimento, quase um prelúdio em forma de paisagem, Tamara Stepanyan nos convida a adentrar LE PAYS D’ARTO, filme que é menos narrativa e mais travessia emocional, um retrato da aflição desenraizada, da memória enterrada e da tentativa quase desesperada de compreender um país ferido, a Armênia.

O ponto de partida parece simples: Camille Cottin é a tal francesa, uma viúva que viaja à região para encontrar o registro de nascimento de seu falecido marido, Arto, para que o filho do casal possa reivindicar a cidadania armênia. Mas não há registro. E não há certeza sequer de que Arto se chamava assim. Entre pistas desconexas, surge outro nome – Arto Santrosian – e, com ele, a possibilidade de uma vida anterior, sepultada pelas ruínas do terremoto de 1988 e pelos escombros ainda mais profundos da guerra em Nagorno-Karabakh.

Stepanyan evita caminhos óbvios, pelo contrário, conduz a narrativa como quem anda em círculos em uma cidade fantasma. Seu filme desvia, hesita, se perde, porque lida com aquilo que é essencialmente incompreensível: a dor do exílio, o peso da história, a identidade fraturada. “Uma vez exilado, exilado para sempre”, como diz a diretora. E tal exílio reverbera na estrutura do roteiro, errante, incerto, muitas vezes deliberadamente desconcertante.

“Deixei minha casa há muito tempo. E ainda assim, continuo batendo na mesma porta.”

Não à toa, haja a música “My Address Is the Same”, de Lyoka, que se ouve nos créditos, pois tal canção resume o retorno impossível. É como se cada frame ecoasse essa letra: uma tentativa de voltar para casa, ainda que a casa tenha desaparecido, ou se transformado em algo irreconhecível. A protagonista busca um papel, mas encontra vazio. Busca um nome, mas encontra ausência. Busca entender quem era Arto, um homem que sobreviveu ao terremoto, mas não à guerra; que abandonou seus companheiros; que abandonou até seu nome.

É impossível não notar o gesto ousado da diretora ao povoar sua obra com não-atores, habitantes reais de Gyumri, muitos deles ainda marcados por traumas profundos. São testemunhas que falam diretamente à protagonista (e conosco) como fantasmas vivos, caminhando entre ruínas físicas e emocionais. Há uma cena, por exemplo, em que uma mulher descreve o sumiço do irmão nos escombros, uma fala simples, direta, sem música, que pesa mais que qualquer dramatização. É nesse ponto que a diretora reafirma sua raiz documental, mesmo em ficção.

E ali, entre tumbas inexistentes de soldados desaparecidos, vemos não só a morte de um homem, mas o luto coletivo de um povo. “Meu endereço é o mesmo, ainda que ninguém viva ali”. Tal metáfora – esse pertencimento que persiste mesmo na ausência – paira sobre a projeção como uma névoa. Talvez a busca nunca tenha existido de fato, ou tenha sido apagada pelas sucessivas camadas de trauma: o genocídio, o terremoto, as guerras… Arto, pelo qual se busca, assim, é um produto do solo rachado. E seu filho, agora, herdeiro da mesma terra.

No final, tudo termina como começou: em trânsito. O trem segue. A paisagem muda. Mas algo permanece… uma sensação, talvez. Um endereço (simbólico? Literal?) que insiste em existir, mesmo que ninguém mais atenda a porta.

“Se eu não estiver lá, lembre-se:
Meu endereço ainda é o mesmo.”

RATING: 66/100

TRAILER

em breve…

CLIP MUSICAL

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REVIEW · LOCARNO

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