Cabelo, Papel, Água…


Como escrever sobre um filme que parece ter sido antes respirado, sorvido, destilado entre musgos e orvalhos, do que propriamente narrado? CABELO, PAPEL, ÁGUA… é um sopro prolongado da terra, um cinema de emanações, que se infiltra pelos poros como o cheiro de erva fresca recém cortada ou o vapor de um chá medicinal esquecido no fogo. No encontro entre o belga Nicolas Graux e o vietnamita Trương Minh Quý (cada qual vindo de tradições cinematográficas distintas, mas cúmplices na mesma contemplação), ergue-se uma obra que se (em)bebe com reverência nas fontes do naturalismo vietnamita, da memória oral, da infância e do que há de mais orgânico no gesto de filmar: esse ato de estar no aqui e no agora, sem julgamentos, sem apego, sem esforço de alterar o que se apresenta.

A água, portanto, é seu compasso e sua voz: gotejando, escorrendo, evaporando e voltando a chover. Há um ciclo sutil e sagrado que conduz esse filme, não em termos de estrutura dramática, mas de pulsação vital. A chuva sobre folhas largas. O vapor que escapa de uma panela de bambu. O silêncio das cavernas, onde ecos úmidos repetem histórias que ninguém mais sabe de onde vieram. Uma velha que fala em Saigon, mas é da floresta. Fala de casas que tocam o céu, mas em cujos buracos se espreita televisores, ruído, esquecimento.

Este não é um filme que nos conta algo, mas sopra ao vento, murmúrios, cochichos, sussurros… e nesses sussurros ecoam tantos (outros) filmes, HONEYLAND, AS QUATRO VOLTAS, A ILHA DO MILHARAL. Obras que, como essa, confiam na terra, nos animais, nos ciclos ancestrais. Búfalos, caracóis, abelhas, macacos e… crianças (sempre elas!) correndo, tropeçando, provando frutas ainda mornas do sol. Um cinema que nos lembra que, por um instante fugaz, o mundo ainda pulsa verde, abundante, inocente.

A avó, que soletra nomes e bichos como se os revivesse é, senão, um xamã de palavras. E o que poderia ser apenas didático, a legenda que nos sublinha palavra por palavra em vermelho, torna-se um gesto de amor, um esforço para que não nos percamos nesse balé de tempo lento e luz filtrada. Como mandioca desterrada, esse gesto nos arranca da tela, nos convida a mastigar imagens, lhes sentir a fibra, o amargor, a doçura escondida. Por vezes, parece até mesmo um sonho. Não há aqui urgência de dizer, de fechar sentidos, tudo é suspenso, como um nevoeiro que se enrosca nas montanhas. O que existe, sim, é uma presença (sagrada? Divina? Invisível?) e isso (nos) basta.

O enredo é tão somente um banho de folhas, um ritual que pede silêncio, respiração e entrega. É uma obra para se absorver com o corpo inteiro. Uma infusão lenta que limpa, acalma, renova. E a história mesmo? Quem precisa de história, quando se tem a chuva?

RATING: 76/100

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REVIEW · LOCARNO · MOSTRA SP

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