Duas Estações, Dois Desconhecidos


No princípio, havia o nada… uma página em branco, vazia, imóvel. Então, um lampejo, e o universo se abre: não um, mas dois filmes, um dentro do outro, avançando e recuando como marés que se reconhecem, mas não se dissolvem. DUAS ESTAÇÕES, DOIS DESCONHECIDOS e no centro, Shô Miyake filmando como quem realiza uma cerimônia do chá: cada movimento é preciso, cada enquadramento, inevitável. Não há desperdício.

O verão abre as cortinas com um encontro hesitante à beira-mar: dois jovens, dois corpos que parecem não pertencer à praia onde se encontram. Seus olhares, como conchas vazias, nos devolvem apenas ecos. As palavras se arrastam, são raras e incertas até serem engolidas pela chuva e pelo sal. Então, corte: o filme muda de estação. O inverno cai como véu e surge a (verdadeira) protagonista, roteirista em suspensão, carregando consigo uma câmera herdada, talvez mais pesada que a própria neve. No vilarejo gelado, encontra um homem, guardião de uma pousada que parece existir fora do tempo. E fora do tempo sentimos o espelho: dois casais, duas estações e donde as conversas são quase paralelas, como linhas que jamais se cruzam, mas ainda assim seguem lado a lado. Duas histórias em uma jornada única, cujo sentido está menos no destino e mais no caminhar.

Sim, tal cinema se constrói como um haicai expandido, mas não alheio à memória: há ecos de Yasujirō Ozu na cadência contemplativa e na arquitetura rigorosa dos enquadramentos; de Ryusuke Hamaguchi, no mergulho paciente pelo invisível, onde cada gesto pode ser a chave de uma vida inteira; e mesmo de Wim Wenders, nessa fé pelas imagens como espaço de respiração, como em DIAS PERFEITOS, onde cada corte é transição natural de um estado de alma para outro. Mas Miyake também dialoga com a longa tradição japonesa de narrar pelo intervalo – inspira, respira – essa pausa fértil onde a emoção se infiltra como luz pelas frestas.

Do mangá de Yoshiharu Tsuge, o filme preserva a melancolia resiliente e o olhar compassivo pelas figuras à deriva, errantes por praias vazias ou vilarejos cobertos de neve. É mínimo e, ao mesmo tempo, carregado de peso; às vezes fábula, outras realismo. Uma projeção de pequenas epifanias e absurdos quase cômicos, até que não seja mais possível distinguir onde termina a história e começa a lembrança ou onde a memória deixa de ser lembrada e passa a ser inventada. Há uma delicadeza quase cruel nesse processo, como se a câmera fosse o pincel de uma aquarela, diluindo contornos para que a emoção seja o que permanece, até tudo ser suspenso no ar e evaporar.

Ao final, percebemos que os dois filmes — o do verão e o do inverno, o da juventude e o da maturidade, o da página que começa a ser escrita e o da página já quase completa — são apenas um. Um encontro. Um espaço. Um tempo. Tudo preenchido com neve, chuva, mar e, sobretudo, com o vazio fértil que só existe antes da primeira palavra.

RATING: 76/100

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REVIEW · LOCARNO · MOSTRA SP

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