


Em KONTINENTAL’25, a cidade é persona ativa, um organismo urbano que assimila e elimina, que avança e apaga, um espaço “democrático e europeu” em perpétua disputa. Não há horizonte neutro aqui: cada cintilante fachada encobre desalojamentos; cada torre de vidro se ergue acima de bairros comprimidos, como sombra da história e histórias sob concreto polido. Radu Jude tão somente filma essa gentrificação como quem registra um crime a céu aberto — e o faz pela dupla (re)qualificação: primeiro do espaço, depois do próprio cinema.
Do espaço, ao desmontar a cidade em fragmentos: avenidas ascendentes, arquitetura onipresente, outdoors que vendem progresso como promessa, tudo arma de demolição simbólica, signos de uma metrópole que cresce expulsando. Do cinema, ao minar a narrativa convencional: uma ruptura que substitui enredo por topografia, personagens por paisagem, emoção por estrutura. Como Jia Zhangke EM BUSCA DA VIDA, Jude observa sem intervir; mas enquanto Jia filma ruínas à beira da implosão, Jude filma uma implosão disfarçada de progresso.
A abertura anuncia tal descompasso: um catador de latas surge em um bosque, deslocado, inapto para aquele “novo mundo”. O gesto singelo de recolher alumínio conecta-se a um cenário insólito: dinossauros de fibra de vidro, fósseis falsos de um passado domesticado para turistas. Essa imagem resume o projeto: tudo reaproveitado, estetizado, comercializado, até mesmo a memória, até mesmo o pobre coitado, que desaparece do filme tão silenciosamente quanto do espaço urbano que o rejeita.
O foco passa então a outro, uma oficial de justiça que executa o despejo. Jude “gentrifica” os papéis, trocando o invisível pelo agente da invisibilidade. Eszter Tompa compõe essa personagem cuja culpa não explode, apenas se acumula, um sedimento ético tão estéril quanto as tentativas de alívio (doações, leituras engajadas, confissões privadas). O interesse do filme, contudo, não está no drama íntimo, mas na relação entre sujeito e espaço: essa personagem também habita um vilarejo engolido pela expansão da cidade, e de novo o trator narrativo, casas erguidas ao acaso, periferia reduzida a apêndice funcional de cidade-mercadoria…
Jude organiza KONTINENTAL’25 em quarteirões formais: esquetes de desconforto intercaladas com planos fixos de edifícios, ruas, placas publicitárias. A cada corte, um novo interlocutor, até que os diálogos se dispersam e resta apenas espaço. No clímax, a narrativa se dissolve em pura observação: prédios imóveis, outdoors vazios, rotatórias intermináveis. A cidade persiste; as vidas que a habitam evaporam. Tal gesto é brutal em sua discrição: retirar a primazia da personagem e oferecer a paisagem como protagonista. É o próprio filme revelando uma cidade que se reescreve apagando, um cinema que exibe o artifício da “requalificação” como o que de fato é — um processo de exclusão revestido de modernidade. O plano derradeiro — construções imóveis em silêncio absoluto — não é uma conclusão, mas a verdadeira constatação: o espaço venceu.
RATING: 74/100

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