Juntos


De uma sede antiga na humanidade, incontrolável, obsessiva, subterrânea. Essa sede que escorre sob a pele, que arde na pele, que quer tocar, tomar, tragar o outro até o fim… amor com sede, portanto. Amor que suga, que suplica, que se (con)funde. Amor que esquece que o outro não é só extensão, mas desejo que transborda, que ultrapassa, que JUNTOS se firma: um filme que não repousa em rótulos seja terror íntimo ou drama relacional, não importa, mas que se infiltra aos poucos, incômodo, entre as frestas do afeto e do pavor porque amar, aqui, é beber demais, até o último gole, até que tudo doa. Eis o filme de estreia de Michael Shanks, ame ou ame.

JUNTOS nasce de uma ideia simples – o amor como fusão – mas distorce a narrativa até o limite do corpo, da identidade e do horror: um casal em crise bebe água de um lago e acorda colado, fisicamente unido por uma força que vai além do real. A premissa, que poderia render apenas uma curiosidade grotesca, é tratada aqui com seriedade simbólica: uma alegoria visual e visceral sobre a obsessão por completude, a simbiose tóxica dos afetos e a velha sede humana por desaparecer no outro.

Inspirando-se livremente no mito do andrógino de Aristófanes — aquele que fala dos seres humanos originários como criaturas duplas, divididas pelos deuses e condenadas a buscar eternamente sua outra metade — a narrativa reconstrói esse desejo de união como maldição. Não há ideal romântico aqui: somente a metáfora em matéria, a sede em vício, o amor em dissolução. E no centro de tudo, um horror que não vem de monstros externos, mas do que somos capazes de fazer em nome da intimidade.

Vagando entre o grotesco e o íntimo, o conceito, portanto, não trata o absurdo da fusão corporal como um evento bizarro ou risível, pelo contrário, o (sub)texto se leva a sério, como se fosse história de amor (o que, de certo modo, é). Michael Shanks, então, filma como quem disseca um organismo vivo: com paciência, atenção aos detalhes, e um respeito quase clínico pela anatomia do afeto. A câmera se demora nos corpos dos protagonistas, não por fetiche, mas pelo compromisso de mostrar até onde vai a união quando ela se torna física demais, íntima demais, fatalmente contínua.

Sim, há sustos, mas longe dos atalhos do gênero, o horror se constrói na insinuação. A dor não vem de um inimigo externo, mas da permanência: do fato de que não há pausa, não há distância, não há respiro. A montagem aposta nesse ritmo lento, como se o tempo no filme se contraísse ao redor do casal, criando um microcosmo sufocante. A trilha sonora é contida, quase ausente, o que amplifica ainda mais a presença do som no corpo, da respiração dupla, da fricção de uma pele na outra.

Sim, o mito do andrógino serve como alicerce: a ideia de que amar é buscar uma metade perdida, que há uma completude a ser restaurada. Só que o filme vira esse desejo do avesso. O reencontro, aqui, não é libertação, mas dissolução. A sede que move os protagonistas não é apenas afetiva, mas uma necessidade profunda, quase doentia, de se tornar uma coisa só. O filme propõe que essa sede por fusão, tão idealizada em discursos românticos, pode também ser uma forma de aniquilação. O ato de beber a água do lago é uma entrega: a ingestão de algo que transforma, que contamina, que liga, como se fosse um batismo às avessas. A sede, no filme, é mais do que desejo. É carência estrutural. É vício. É compulsão por desaparecer no outro, por apagar as fronteiras do eu. É uma sede que, quando saciada, consome.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 73/100

TRAILER

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FILMES · SUNDANCE · LOCARNO

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