


A versão “legitimamente romena” de DRÁCULA, de Radu Jude, sangra todo e qualquer conceito do vampiro, não para se purificar, mas para rir dessa infecção. Seu conto não é uma adaptação qualquer, é um abate verborrágico: uma paródia metastática que transforma o mito gótico em lente de aumento sobre a anemia moral da era digital. Há algo de cômico e cruel em ver o conde mais célebre da literatura sendo reanimado por um software, como se o algoritmo, num gesto de necromancia industrial, decidisse brincar de Deus com as sobras da cultura. O cineasta assiste, fascinado e enojado, à banalidade desse feitiço: “O progresso parece muito maior do que é na realidade”, ele diz, e seu filme age como quem arranca o véu da promessa tecnológica, expondo o suor, o bug e o fetiche.
Tudo em DRÁCULA pulsa como uma ressaca do século XXI. O riso lateja, o tédio transpira. O cineasta encena o colapso do mito com uma alegria que beira o sadismo, a alegria de quem já não espera redenção alguma. O vampiro, que outrora simbolizava o medo da degeneração ou da luxúria, aqui se converte em símbolo da saturação: uma criatura feita de repetições, memes e prompts, que se alimenta de imagens, não de sangue. Jude constrói o filme como um castelo de ruínas digitais, um colar de absurdos costurado por um roteirista bloqueado que entrega sua alma a uma inteligência artificial e, aos poucos, se torna servo da própria ferramenta.
Mas o humor, como sempre, nunca é apenas cínico. Ele o descreve como “uma espécie de ferramenta de desespero”. E é exatamente isso que transborda da tela, uma gargalhada nervosa, que estoura como um lampejo de lucidez. Já começa com uma legião de vampiros gerados por IA berrando “I am Vlad the Impaler, you can all suck my cock” – uma blasfêmia digital que sintetiza a estética do filme: o grotesco como linguagem franca, a obscenidade como idioma universal. Jude parece dizer que, no capitalismo tardio, até a vulgaridade se tornou automatizada – e que talvez o último gesto de autenticidade possível seja rir: rir com raiva, rir com fome, rir com culpa.
O resto é uma colagem febril: talk shows, conferências, pornô de arquivo, teatro didático, autoentrevistas. Tudo se sobrepõe como uma timeline sem curadoria. O filme morde a forma e deixa as marcas à mostra. É Bram Stoker com Wi-Fi ruim. Jude gosta de citar Godard, mas filma como se o estivesse exorcizando, lhe arrancando o ímpeto modernista e o mergulhando em um poço de sarcasmo. Quando o vampiro tenta justificar seu próprio tédio com jargões de autenticidade, Jude o empala com um meme. O público ri, mas sente o gosto metálico do sangue na boca diante desse filme-frankenstein que alterna pulsos de ridículo e de lucidez: ora um fórum online, ora um panfleto socialista, ora um sketch do inferno. E é nesse zigue-zague que o roteiro (que roteiro?) encontra sua coerência: o caos como ética.
Há, contudo, certa melancolia na forma como se representa o vampiro, qualquer um dos infinitos deles. Um ser dentro das redes, invisível e incansável, alimentando-se de cliques e franquias. Um zumbi a vagar (ou fugir?) por um mundo que trocou a alma pela banda larga. Um conde sem castelo, ele próprio onipresente em cada dispositivo, souvenir ou peça mambembe; onipresente em cada olhar fatigado que desliza o dedo sobre a tela, ou no catálogo de streaming em mil versões de Murnau, Herzog, Coppola… a montagem abraça deliberadamente a redundância: o som falha, a IA produz falos de plástico e frases sem nexo.
Sim, a farsa é propositadamente barroca — insiste no humor escrachado para, na verdade, percorrer uma coreografia de contradições. Cada cena morde o que veio antes. Cada ideia é posta em dúvida antes mesmo de se completar. O resultado é um fluxo de consciência que cambaleia, tropeça, mas nunca para, como se o cinema, já exaurido, ainda tentasse correr mais um quilômetro, suando pixels e sarcasmo.
Não à toa, quando o vampiro olha para o espelho e não se vê, a tela o devolve multiplicado: uma centena de versões borradas, ecoando umas às outras num loop infinito. É a ironia máxima do filme: o monstro que buscava reflexo se perde em reflexos demais. Porque tal cinema não é apenas sobre o sangue; é sobre o sangue que já não coagula. O sangue da imagem, o sangue da ideia, o sangue da crença em algo que ainda valha a pena ser mostrado. Uma contínua hemorragia que persiste no escuro da sala, a tela brilhando como um espelho sem reflexo, devolvendo não um conde, nem um cineasta, mas um público cansado, hipnotizado, ainda disposto a rir enquanto o mundo o suga lentamente para dentro de suas contínuas atualizações.
RATING: 75/100

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