Anomalisa


Viver é, acima de tudo, uma forma refinada de opressão… os mais lúcidos percebem cedo demais; os outros, talvez os idiotas, os esperançosos, apenas aceitam. Charlie Kaufman, como quem observa o lento desmoronar da consciência humana, tão somente filma esse peso. E o faz à sua maneira: radiografando o “modus operandi” da banalidade, esses perdedores elegantes tão míopes de alma, que caminham em círculos dentro do próprio labirinto mental. São criaturas à deriva, trituradas pelo cotidiano, oscilando entre o tédio e o vago BRILHO ETERNO (DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS), talvez em eterna ADAPTAÇÃO com o mundo, peças de um imenso quebra-cabeça que nunca se encaixa, nem com os outros, nem consigo mesmas, nem com o universo.

Já em SINÉDOQUE, NOVA YORK, o caos se espalhava como tinta sobre o chão. Aqui, em ANOMALISA, ele se recolhe num quarto de hotel, num gesto quase microscópico. Kaufman continua o mesmo cartógrafo do desespero: organiza o absurdo em post-its, em puppets, em película, compondo o drama de um homem que perdeu a capacidade de sentir e talvez, mais trágico, de distinguir.

Então, os pensamentos de um homem, marido, pai em desenho, ou o oráculo corporativo que ensina os outros a se inspirar enquanto ele próprio se apaga. Um corpo oco em meio à meia-idade, corroído por lembranças, por repetições, por vozes que se confundem até tornarem-se uma só. Nesse hotel donde as paredes respiram com ele; o carpete parece se expandir, sufocar. Todos têm o mesmo rosto, a mesma voz. A realidade, essa farsa bem-educada, o prendendo em loops de polidez, de conferências, de corredores intermináveis tão longos que exigem um carrinho de golfe para transitar entre a rotina e o abismo.

E então surge o erro. A falha no sistema. A anomalia. Lisa… de um quarto vizinho ou de algum recanto esquecido da humanidade, surge essa figura frágil, doce e imperfeita. Uma mulher que desafina. Que fala com uma voz diferente. Que respira como se fosse real. E, por uma noite, o algoritmo falha: há ternura, há contato, há o tropeço da carne e do gesto. Há o simulacro do amor. Sim, é um instante (muito) breve, um flash, porque o dia seguinte surge novamente com ovos mexidos, promessas débeis e o mesmo retorno ao vazio… o mundo na mesma voz e o protagonista, de novo, escutando o eco do próprio silêncio. Corte. Check-out. Um Fim (da estadia?) e do voltar a viver… esse verbo que Kaufman insiste em revelar como o mais triste dos hábitos.

RATING: 83/100

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ANIMAMUNDI · FILMES · TIFF · VENEZA · SAN SEBASTIAN · RIO · MOSTRA SP · ROTTERDAM

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