


Não há princípio, nem fim, nAS ESTAÇÕES, de Maureen Fazendeiro… tudo aqui é documento e fábula, ou antes um tear de vozes, de gestos e de ventos, um novelo de memórias que se desenrola ao compasso das cigarras e dos sinos das ovelhas, onde cada fio leva a um tempo e cada tempo se entretece ao outro. Aqui, o campo não é mero cenário: talvez um alfobre de histórias, arca do dizer, território de prosas que se transmite de boca em boca, como se fossem rosários contados junto ao lume. Como outrora nOS DIÁRIOS DE OTSOGA, tudo é de uma simplicidade aparente – e digo “aparente” porque há, sob a superfície de tais imagens, uma arqueologia de camadas. É um cinema que escava, como quem afasta a terra com a ponta dos dedos para descobrir vestígios de outrora. A herança dAS QUATRO VOLTAS, de Michelangelo Frammantino, é evidente, mas aqui o sotaque é alentejano, tingido de saudade, cercado por montados e planícies que se estendem até se perder de vista.
Sim, no andar do filme, as estações mudam como páginas de um almanaque antigo: o verão abre com risos de crianças, o outono traz o peso das revoluções e das jornadas camponesas, o inverno evoca os Leisner – esse casal de alemães que, nos anos 40, estudavam monumentos funerários enquanto a Europa ardia -, e a primavera floresce em lenda, em encantamento, num tempo no qual homens e mulheres ainda mediam coragem diante de mouras encantadas. Mas a montagem dissolve qualquer ordem: as épocas se misturam como águas de dois ribeiros que se encontram. A câmera, então, flui, faz seu caminho de errância e encontros inesperados: do nada, uma pintura rupestre; do nada, um rebanho de ovelhas, os balidos e os cincerros marcando o compasso; do nada, cartas trocadas, canções de trabalho, mãos enrugadas folheando poemas como quem revolve terra antiga. E assim se vê os registros de um povo, imagens de arquivo, encenações com trajes de outrora ou fragmentos de poesia popular. Um verso ouvido ao acaso, “ouvindo os grilos cantando, lembra-te?”, abre passagem para uma carta, que abre passagem para um conto, que se dissolve num acorde de viola campaniça. A oralidade é o próprio motor do filme: não há qualquer pressa da cidade, mas a cadência de quem caminha devagar pelo campo, deixando-se embalar pela toada das palavras.
Há também uma atenção quase táctil à materialidade: a cortiça a ser descascada do sobreiro, como se fosse pele; a mão calejada a folhear poemas; a chuva fina sobre as videiras; a névoa a encobrir Évora. Tudo é matéria viva, tudo respira. E quando a música chega — seja o rock peruano tropical que inaugura a estrada, seja as toadas de um tempo esquecido em viola — ela não interrompe os sons do campo, mas o prolonga noutra frequência.
No fim, tal cinema é menos um filme sobre o Alentejo e mais um filme que é o próprio Alentejo com suas longas pausas, suas histórias que se contam de várias maneiras, sua memória que não se guarda em livros, mas na boca do povo e na paciência do tempo. É um cinema de recolha e escuta, um gesto de preservação que entende que o campo não é apenas terra para lavrar, mas o chão onde se assenta a nossa identidade.
RATING: 80/100

TRAILER

