


No futebol, chama-se FOLHA SECA, o chute que sobe em arco e, de repente, despenca de forma imprevisível. No cinema, esse mesmo movimento entre gravidade e mistério – esse impulso de destino incerto – é o que Alexandre Koberidze transforma em filme. Ou melhor, em (anti) filme: a busca de um pai por sua filha desaparecida. Ou, talvez, um cinema sobre a própria arte de procurar como o fez em WHAT DO WE SEE WHEN WE LOOK AT THE SKY?, não é a resposta que importa, mas sim a poética do intervalo, o gesto suspenso entre o olhar e aquilo que se oculta.
Sim, a moça foi embora. Deixou apenas uma carta e um vestígio: a ausência. Era fotógrafa, mas sua imagem é só desfoque. O pai, naturalmente, resolve segui-la – ou ao menos seguir seus rastros, se é que ainda restam rastros. Ao lado do invisível, ele atravessa a Geórgia como quem atravessa um sonho em ruínas: casas vazias, campos dourados, pêssegos maduros, crianças jogando futebol ao entardecer. Os caminhos são circulares. O tempo, linearmente suspenso. As respostas? Nenhuma… apenas o eco de perguntas sopradas ao vento.
Koberidze constrói sua narrativa como quem coleciona suspiros. Vídeos granulados, folhas mortas, miados que ressoam em campos vazios, pequenas notas de piano pingando como orvalho. Cada elemento parece lembrar da filha — ou esquecer de lembrá-la. Um limbo em forma de road movie invertido, sem estrada, só intuição. Sem pressa, apenas contemplação. E onde cada cena, cada encontro, é uma impossibilidade:
— “Você viu essa moça?”
— “Não, acho que não…”
E ainda assim, sentimos que todos a viram. Ou sonharam com ela. Ou talvez ela nunca tenha sido exatamente uma pessoa, mas um estado de espírito. Um assombro. Em cena, o pai mostra uma fotografia borrada da filha. Um borrão não por falha técnica, mas por decisão estética, como uma lembrança que se desfaz, um rosto que nunca conseguimos fixar. A câmera também procura. Varre a névoa. Interroga árvores, portas semiabertas, até mesmo o silêncio. Filma o invisível: o véu sobre os olhos, o lusco-fusco entre o que foi e o que poderia ter sido. A folha seca do título não é só um chute, é metáfora da própria trajetória do protagonista, levado por forças que não compreende, mas nas quais confia. O vento como bússola. O mistério como lar.
Tal como a filha, nós — o público — também vamos desaparecendo aos poucos. A projeção segue sem destino, mas insiste na ternura do caminho: na forma de observar esse mundo, mesmo nos seus cantos mais esquecidos – um campo de terra batida, um entardecer ciano, o rastro de uma bicicleta, a gentileza de um estranho. Sentimos algo aqui: um tributo ao invisível e àqueles que seguem buscando, mesmo sem saber exatamente o quê.
Ao fim, há uma promessa de reencontro. Ou, talvez, só de sentido. Mas não esperem revelações. A experiência não é sobre o que se encontra, é aquilo que se persegue. E sobre os laços tênues que nos ligam àqueles que partiram, aos que nunca vimos, aos que – de alguma forma – sempre estiveram conosco.
Porque, como sussurra uma voz no meio da névoa:
“Eu nunca vi essa pessoa. Eu não teria esquecido dela.”
RATING: 76/100

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