



Sim, A MEIA-IRMÃ FEIA ainda é um conto de CINDERELA, mas no corpo de uma princesa embalsamada em perfume barato. Não é mais o conto delicado de fadas e ratos costureiros: é uma carniça vestida de tule. Emilie Kristine Blichfeldt em sua estreia, tão somente reabre esse caixão enfeitado com rendas para exibir, sem anestesia, a carne pútrida por trás da doutrina de que “para ser bela é preciso sofrer”. O resultado é uma tapeçaria úmida de frufrus ensanguentados, cheiro de rosa podre e umedecida de luxúria.
Aqui, a estética é de lombriga: o (body) horror rastejante, lascivo, faminto que consome de dentro para fora. A narrativa se esgueira pelos corredores do palácio como larva buscando o útero morno da meia-irmã: aquela que corta o calcanhar e enfaixa o pé, que sangra para caber no sapatinho de tule, que sorri mesmo quando os ossos da face gritam de dor. Uma mulher, enfim, talhada a canivete para caber num molde impossível, por vezes tirânico. Um corpo esculpido não por fadas madrinhas, mas por bisturis e dietas de purgação. Cada passo da personagem é o purgatório de quem se vê aos poucos deformando-se para agradar olhos que não a veem. Numa lente que parece lubrificada com vaselina e lágrimas, o filme transforma o baile em um manicômio de olhares distorcidos: o horror da beleza cintilando sob lustres e passos coreografados de corpos em espartilhos.
Inspirado no cinema de contos de fadas da Europa Oriental dos anos 60 e 70, a fotografia não mascara seu realismo apodrecido: cenários obscuros, góticos, sombrios como túmulos abertos; figurinos decrépitos como a carne vestida de cetim dos cadáveres aristocráticos. É um filme que não busca beleza, mas observa apodrecer, os vermes em cena se banqueteando.
O conto, claro, nunca foi inocente. Grimms e Perrault apenas colocaram açúcar no absinto. Na versão alemã, a meia-irmã sangra no sapato como um cordeiro sacrificado. Walt Disney, depois, selou o destino: a beleza se tornou prova de pureza e a feiura, condenação. As irmãs postiças foram caricaturadas, rebaixadas à simples ridículo. Mas quem nunca se viu nelas, tentando caber onde só cabe a eleita? Esse é o filme… a crítica pungente: não se trata de transformar a vilã em heroína, mas de mostrar que talvez nunca tenha havido vilãs – apenas sobreviventes mutiladas pelo desejo de amor e aceitação. Porque naquele tempo (e talvez ainda hoje) casar-se bem era escapar da fome, da servidão, da insignificância. O sapatinho de cristal era menos símbolo de amor e mais instrumento de seleção natural. É para todas as garotas que sangram sozinhas no banheiro enquanto passam fita adesiva nas gorduras da barriga. É para quem se olhou no espelho e pensou: “Nunca serei suficiente”. Mas é também um alerta: o sapato foi feito para uma só. E todos nós, nos rastejamos atrás dele, com dedos amputados e calcanhares corroídos, somos meias-irmãs, corpos descartáveis. Sim, Cinderela afinal venceu, mas cheire mais de perto: ela fede a formol.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 74/100

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