Um Mundo Triste e Belo


O primeiro clarão já nos fere os olhos… fulmina, fulgura, fulmina de novo, mas assim nasce UM MUNDO TRISTE E BELO, de Cyril Aris: as imagens insurgentes do fogo como um suspiro entre sirenes, para ali se ver um (ou algum) gesto de ternura no meio da fumaça. Cada frame encruado na pele de um país em guerra, cicatriz que ainda arde e donde o amor, aqui, não redime, só incendeia. Sim, tal sentimento é quase imperceptível, não está nos livros, é feio, mas ainda assim fura o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio em meio ao colapso, uma chama teimosa que insiste em não se apagar. O Líbano ao redor pulsa como um coração à beira da falência, exausto, rachado, mas ainda assim vivo. E nós, com ele, vivemos.

O título, emprestado de DOWN BY LAW de Jarmush, não suaviza nada: o mundo de Aris é, de fato, triste e belo. Triste como um parto sob escombros; belo como o instante em que dois corpos, cobertos de poeira, ainda encontram força para dançar antes que tudo desabe de novo. Nino e Yasmina nascem desse abalo, fragmentos de um país em combustão, partículas de um mesmo incêndio. Desde o nascimento sob bombardeio, até o reencontro em acidente, o destino deles é correr, fugir e retornar, amar e perder, como se cada recomeço fosse também um epitáfio. Nino (Hasan Akil), cozinheiro em Beirute, insiste em permanecer, cuidando do restaurante da família como quem protege o último lume de um lar prestes a ruir. Yasmina (Mounia Akl) sonha com o exílio: Dubai como miragem, promessa de um futuro sem tremores.

Aris, documentarista de ofício, filma esse embate como quem caminha sobre brasas. Sua câmera tão somente observando e donde cada corte é uma respiração irregular, cada movimento, uma tentativa de sobreviver ao próprio tremor. Entre imagens de arquivo e cenas encenadas, o filme se constrói como um mosaico quebrado, um coração em montagem.

Há um pouco de riso, claro, ainda vivemos um filme de amor e, assim, sorrimos entre escombros e caretas, entre o garçom que tropeça e a sogra que reclama, o riso se torna sobrevivência. É o compasso que mantém o corpo em movimento quando tudo ao redor congela. Rir é continuar correndo, mesmo sem chão. E é nessa corrida que o cinema encontra seu pulso, donde cada elipse é um salto, cada silêncio, um desvio da explosão seguinte. O tempo se dilata, depois colapsa; e o público caminha junto, ofegante, tropeçando nas mesmas ruínas, enquanto a vida atravessa o filme com a mesma urgência com que o próprio cineasta filmava enquanto se tornava pai. O nascimento de um filho, o colapso de um país, duas erupções simultâneas. E o cinema, ali, tentando registrar a beleza desse abismo, a dança sobre o precipício. Um filme que corre até a exaustão e, ainda assim, encontra beleza no fôlego que resta. Entre o amor e o desespero, o que se vê é o ritmo da vida, ela ainda irregular, intensa, humana. Triste, sim, mas acima de tudo, bela.

(*) Primeiro parágrafo contém um trecho de “A flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade

RATING: 78/100

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REVIEW · VENEZA · MOSTRA SP

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