Alpha


Um tema espinhoso, escarninho, que supura dor, talvez o mais ulcerante da filmografia de Julia Ducournau. O resultado é um soco pútrido, um choque que fede, porque a cineasta nos crava na carne, nos enfia dentro do sarcoma, e nos obriga a farejar a podridão. É um filme sobre AIDS que dedilha a derme como se folheasse um cadáver em decomposição, um filme de zumbis sem a maquiagem, com doentes esculpidos em mármore mórbido, a pele esturricada como escamagris estilhaçada. Sempre um tom acima, sempre um toque a mais de tortura. O que incomoda, enoja, repugna e assim o desconforto se arrasta, se insinua, se instala, ali onipresente como o odor de necrose. E, no centro desse espetáculo de sofrimento, Tahar Rahim se desfaz, um corpo que se contorce, corrompe, consome. Sua atuação é uma oferenda orgânica, uma explosão visceral, um gesto gigantesco de entrega, mas o que dá o tom aqui, o que dita o descompasso da dor, é o detalhe sujo, sutil, sangrento… e incomoda, ame ou odeie.

Dentro desse estado febril, Ducournau abandona qualquer conforto estrutural para fazer do cinema um corpo em mutação contínua, donde passado e presente se esfregam como feridas abertas. A doença que atravessa a trama (e deliberadamente deslocada da história concreta da AIDS, mas jamais dissociada de seu trauma) funciona como um fantasma coletivo, uma paranoia social que corrói vínculos, sexualidade, linguagem e afeto. Não há interesse em reconstrução histórica nem em pedagogia: o que importa é o medo como atmosfera, como neblina tóxica que contamina tudo. O resultado é um mundo onde o toque é suspeito, o desejo é uma sentença, e o amor carrega sempre o risco da contaminação.

Disso, a relação entre mãe e filha se revela o verdadeiro epicentro do horror. Golshifteh Farahani encarna uma maternidade exausta, sacrificial, quase santa, uma figura que ama até a anulação. À cineasta cabe filmar esse vínculo como uma simbiose doentia, uma fusão que precisa ser rompida à força, como se a emancipação fosse uma amputação necessária. Visualmente, o filme radicaliza essa cisão. O passado surge saturado, quente, quase nostálgico, como uma memória contaminada pela saudade de um tempo anterior ao pânico. O presente, ao contrário, é dessaturado, metálico, frio, um mundo onde a vida parece ter sido drenada pela vigilância constante. A imagem, então, é trabalhada como se ela própria estivesse adoecendo, perdendo cor, densidade e calor humano. Não há aqui o fetiche do grotesco pelo grotesco, mas a busca insistente por uma beleza corroída, um chiaroscuro corporal em que cada plano parece disputar espaço entre o sagrado e o abjeto.

Se RAW falava da descoberta do desejo e TITANE da reinvenção violenta da identidade, ALPHA parece mais interessado na permanência. O horror vem aos poucos, se arrasta, se infiltra, se deposita como poeira tóxica sobre os corpos. Sim, Ducournau segue sendo uma cineasta do excesso, mas agora o excesso é emocional, ético, quase metafísico. O público percebe esse trabalho mais árido e, talvez, mais maduro, mesmo assim é um caminho árduo, um cinema que encara de frente a herança traumática de uma geração inteira e a transmite, sem anestesia, à seguinte. É quase contagioso, você sai da sessão não transformado, mas infectado. E a tal sensação continua apodrecendo lentamente meses depois…

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 65/100

TRAILER

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REVIEW · CANNES · RIO · FILMES LGBT

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