


Em CIDADE SEM SONHO, Guillermo Galoe filma um povo condenado à invisibilidade: a câmera se infiltrando nos interstícios da periferia madrilenha para registrar os dias de habitantes de Cañada Real, comunidade informal há décadas ameaçada por um lento e silencioso processo de apagamento. A eletricidade cortada durante meses, as promessas não cumpridas, os olhares que se habituaram à escuridão forçada – tudo compõe a topografia de uma cidade que insiste em existir mesmo sem permissão. O título, aceno invertido ao poema homônimo de Lorca, não se refere apenas à insônia literal, mas a uma vigília constante diante da ameaça de dispersão, como se o simples ato de permanecer já fosse algo subversivo.
Esse chão arrancado, essa cidade que se apaga à revelia dos moradores, ecoa as paisagens de outros filmes recentes que também abordam o desenraizamento forçado como violência estrutural. Em RETURN TO THE DUST, o cineasta chinês Li Ruijun acompanha o cotidiano de um casal camponês relegado às margens do sistema. O vínculo afetivo que surge entre eles se confunde com o apego à terra, ao barro, ao trabalho árduo – tudo prestes a ser apagado por um desenvolvimento urbano que não os considera. A poeira que os envolve não é apenas física: é também uma névoa que encobre seus direitos, sua dignidade, a permanência.
Já SEM CHÃO, documentário palestino dirigido pelo agredido, sequestrado e desaparecido Hamdan Ballal, é explícito em sua denúncia. O filme parte da experiência de famílias expulsas de suas casas em Jerusalém Oriental, acompanhando a luta por reconhecimento, abrigo e pertencimento. Aqui, o apagamento é duplo: geográfico e simbólico. As histórias pessoais ganham força na montagem que recusa o sensacionalismo. Não há chão porque não há espaço reconhecido para existir – e a câmera, com delicadeza, resiste a essa ausência.
Três filmes, três geografias, um mesmo gesto: o da captura do desaparecimento. Em todos eles, o espaço – essa materialidade concreta que deveria ser um direito mínimo – é sistematicamente confiscado. CIDADE SEM SONHO mostra uma cidade negada; RETURN TO THE DUST, uma vida que se esfarela com o vento; SEM CHÃO, um povo que, mesmo sem casa, insiste em nomear sua história. Em todos esses filmes, existem um desmonte simbólico, a tentativa de reescrever o mundo sem esses corpos, sem esses nomes, sem essas casas, um tríptico de resistência, portanto, isso diante de um mundo que avança como rolo compressor sobre gente que caminham contra o esquecimento, mesmo que para isso precisem pisar sobre ruínas.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 70/100

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