Nagi Notes


Kōji Fukada leva poucos dias para moldar sua protagonista. Ou talvez apenas alguns planos. Em NAGI NOTES, basta a calmaria, uma cadeira posicionada diante de uma escultora e o compasso calmo de uma vila para que a protagonista deixe de ser apenas uma visitante e se transforme em matéria viva. Como barro úmido entre dedos pacientes, ela vai adquirindo contorno aos poucos. Não há pressa. Não há grandes rupturas. Há apenas o gotejar do tempo. E sim, de novo esse fascínio por personagens profundamente humanos, imperfeitos, reais. Aqui, no entanto o cineasta depura ainda mais seu cinema: há menos crueldade, menos drama, menos tudo… porque tudo parece ter acontecido antes do primeiro plano ou mesmo reservado para depois do último. O que resta é o intervalo. A permanência. A observação. São as tais notas de qualquer dia.

Yuri, uma arquiteta recém-divorciada, chega à pequena Nagi para visitar Yoriko, sua ex-cunhada, uma escultora que vive entre montanhas, arrozais e rotinas repetidas com a precisão dos rituais. O que começa como uma breve estadia ganha novos sentidos quando Yuri aceita servir de modelo para uma escultura. A partir daí, Fukada constrói um dos mais belos filmes sobre o ato de olhar. Simplesmente porque aqui, esculpir não significa reproduzir um rosto. Significa perscrutar uma presença: Yoriko observa Yuri como quem tenta compreender uma paisagem antes que a névoa retorne. E assim, cada conversa, cada pausa, cada lembrança compartilhada acrescenta um véu invisível à obra.

A escultura deixa de ser objeto. O filme se torna um processo de descoberta. Fukada parece interessado não na obra concluída, mas nos esboços, nos ensaios, nos fragmentos. Sua câmera contempla esse cotidiano com a mesma atenção que um artista se dedica a uma paisagem antes de pintá-la. O resultado é um cinema que encontra beleza simplesmente nos pequenos gestos: a roupa sendo estendida no varal, a chuva batendo no telhado, os passos percorrendo ruas silenciosas, o canto constante dos pássaros costurando o espaço entre uma cena e outra. Há algo profundamente de Ozu nessa contemplação, não apenas pelos enquadramentos serenos ou pelos tempos mortos, mas pela crença de que a passagem dos dias revela aquilo que os diálogos não conseguem alcançar. Fukada filma então, essa rotina como quem acompanha uma longa caminhada interior donde cada passo parece insignificante, mas juntos, se transforma em catarse.

Ao fundo, escutam-se ecos de uma base militar. O rádio transmite notícias de guerras distantes. Um disparo ressoa entre as montanhas. Mesmo assim, o mundo insiste em atravessar aquele aparente refúgio. Como uma sombra avançando lentamente sobre a pintura, a realidade invade o quadro sem jamais destruí-lo. O roteiro só sugere que nenhuma serenidade existe isolada da história, da política ou violência. Inclusive, a tensão também aparece nas histórias paralelas envolvendo dois adolescentes que começam a descobrir sua identidade. Em contraste com Yoriko, pertencente a uma geração acostumada ao silêncio e à discrição, os jovens encaram seus desejos com uma coragem ainda desajeitada. O choque entre essas experiências só enfatiza ainda mais a reflexão sobre pertencimento.

Ao final, permanece a sensação de uma visita ao interior que se prolonga na memória. Como o som distante de água pingando em um ateliê vazio. Como uma caminhada lenta por uma estrada cercada de verde. Como dedos modelando barro enquanto a luz muda pela janela. Fukada não entrega respostas nem revelações nem um filme. Apenas nos convida a permanecer. E, por alguns dias preciosos, isso basta.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 68/100

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REVIEW · CANNES

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