

E se o Minotauro ainda estivesse vivo? E se, depois de Teseu abandonar o labirinto e Ariadne recolher seu fio, a criatura não tivesse morrido, mas aprendido a esperar? Talvez o monstro tenha atravessado séculos escondidos dentro da própria lenda, trocado os chifres por coroa, o focinho por um rosto humano, o labirinto de pedra por um palácio, gabinete ou nação. Talvez tenha descoberto que não precisa mais devorar quatorze jovens num ritual de sangue quando afinal pode convencer os próprios homens a escolher os sacrificados. É dessa antiga fome que Andrei Zviaguintsev se aproxima em MINOTAUR: uma variação sobre A MULHER INFIEL, de Claude Chabrol, no qual o mito grego ressurge como criatura contemporânea: não um monstro escondido no labirinto, mas o labirinto inteiro, erguendo suas paredes ao redor de todos.
No centro desse labirinto vive um pequeno oligarca provinciano, dono de uma empresa de caminhões, de uma casa modernista, de uma esposa infeliz e de um filho que aprende, com o pai, a violência como idioma macho. Ao redor da família, a Rússia rural vive sob o signo da guerra: tanques atravessam os trilhos, a letra Z aparece nos para-brisas e uma nação inteira tenta assimilar, negar ou simplesmente sobreviver ao monstro que criou. Quando o marido descobre que a esposa encontrou um amante, não o enfrenta como crise sentimental, mas uma invasão de território: sim, alguém entrou em seu labirinto sem autorização. Por isso, a retaliação, o desejo de transformar a traição em crime. Enquanto isso, convocado pelo poder local, precisa entregar quatorze homens para a guerra. Como no mito grego, são os sacrifícios oferecidos ao monstro. A diferença é que o Minotauro moderno não espera que suas vítimas sejam levadas até ele. Seus próprios súditos aprendem a selecioná-las.
E é aqui que a monstruosidade se torna mais complexa porque o pequeno oligarca, protegido por anos de favores, dinheiro e cumplicidade, encontra uma solução para a exigência do poder: anuncia vagas, atrai homens com a promessa de melhores salários e os entrega à guerra antes mesmo de precisar pagar por seu trabalho. A criatura não apenas devora, mas ensina suas vítimas a alimentar o próprio monstro. Só que o sacrifício também oferece (outr)a oportunidade… enquanto o mundo se ocupa da guerra, o marido encontra no caos uma maneira de recuperar o controle sobre a própria casa. A violência pública torna-se ferramenta privada. O Estado exige quatorze corpos; ele descobre que pode entregar os corpos e, ao mesmo tempo, resolver a infidelidade. O Minotauro, afinal, não é apenas aquilo que impede a saída. Às vezes, é justamente aquilo que abre uma porta.
Não à toa, o mito sequestra o filme e retorna ao presente europeu: a criatura nascida do desejo, da vergonha e da violência já não está confinada à antiguidade. Ela reaparece vestida de pátria, ordem, masculinidade e guerra. Já em LEVIATHAN, o cineasta tinha transformado sua pátria em uma força colossal que esmagava o indivíduo. Aqui, o monstro é mais íntimo e talvez mais terrível: ele mora dentro do pai que ensina o filho a bater; do marido que confunde amor com propriedade; do empresário que transforma homens em nomes descartáveis. Mas também mora no privilégio daqueles que conseguem olhar o mundo de cima, ele próprio protegido pelas paredes do próprio labirinto. O casal sofre, deseja, mente e se destrói, mas continua suficientemente acima do abismo para observar a catástrofe sem precisar cair nela.
No fim, não existe Teseu. Não existe espada. Não existe herói entrando no labirinto para devolver o mundo à normalidade. O Minotauro moderno construiu sua casa, educou seus filhos, administrou empresas, escolheu seus sacrifícios e chamou tudo de ordem. O amante pode oferecer uma porta secreta, mas o desejo não derrotou a criatura. Dentro do labirinto, imaginar outra vida já constitui uma forma de rebelião. O problema é que ninguém ali parece realmente interessado em escapar. Cada um procura apenas o corredor mais confortável. E assim, o homem que passoua vida controlando as saídas descobre que também é uma criatura presa, enquanto aqueles que acreditavam apenas sobreviver ao monstro percebem, tarde demais, que aprenderam a alimentá-lo.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 80/100

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