

Um inofensivo ronconcon francês de feira ambulante e luz vacilante, que logo se assume em um vaudeville de cortinas carmim, sombras chinesas e sentimentos suspeitos. LA VÉNUS ÉLECTRIQUE novamente encontra Pierre Salvadori em território familiar, de novo o Boulevard de enganos amorosos que se move pela farsa melancólica, improvisada, faminta entre o charme inegável e a recusa ao cinismo. E de novo, a “pure comédie”, o tom burlesco donde a graça fica justamente no desequilíbrio entre sinceridade e representação. O espetáculo cabe aos personagens apaixonados, eles tentando sustentar a mentira como se fosse um pacto de ilusão capaz de devolver sentido aos vivos, o público ao menos se ilude, eletrificado.
O truque? não filmar a Paris dos anos 20 como reconstituição histórica, mas filmá-la como palco aberto. Um palco povoado por vendedores de ilusões, artistas em crise, trapaceiros sentimentais ou sonhadores profissionais. A época serve então, menos como contexto e mais como condição dramática para um universo onde acreditar (ou sonhar?) ainda é virtude e não sintoma de ingenuidade. O cineasta tão somente compreende que seus personagens não sobrevivem graças à lucidez, mas sim às ficções que inventam para continuar caminhando. Daí o fascínio do filme por cortinas, véus, reflexos, cartas, sombras e encenações. Tudo aqui sugere passagem. Um mundo se abre atrás de outro. Uma representação esconde outra representação. Uma mentira produz uma verdade que produz outra mentira.
A narrativa avança assim, aos tropeços calculados de uma companhia de teatro que parece improvisar cada apresentação. O texto naturalmente prefere o mecanismo cambaleante, a falcatrua afetuosa… os personagens entram e saem de cena como artistas atrasados para o próprio espetáculo, ali correndo para sustentar uma invenção que ameaça escapar de controle. O resultado possui algo de deliciosamente artesanal. Cada sequência parece montada com barbantes, remendos e boa vontade. E, paradoxalmente, é dessa precariedade que nasce o encanto.
A encenação reforça ainda mais essa sensação: cortinas enquadram os atores como pequenos números de palco. Lençóis transformam-se em telas fantasmagóricas. Objetos ordinários adquirem funções quase mágicas. Longe de esconder os mecanismos da ficção, Salvadori os exibe com orgulho infantil. Como um prestidigitador que revela parte do truque apenas para tornar o restante ainda mais fascinante.
Esse jogo entre sinceridade e representação atravessa também os personagens. Todos parecem ocupar simultaneamente os papéis de ator e espectador, manipulador e manipulado. Ninguém domina completamente a encenação. Ninguém permanece completamente inocente. O que poderia facilmente descambar para o cinismo encontra, no entanto, uma inesperada delicadeza donde não existem mentirosos, mas sim um carinho evidente por criaturas que recorrem à invenção porque a realidade lhes parece insuficiente, áspera ou simplesmente insuportável.
Anaïs Demoustier compreende perfeitamente essa frequência. Sua presença combina malícia, melancolia e movimento, como se fosse uma acrobata emocional, equilibrando humor e tristeza sem jamais permitir que uma dimensão anule a outra. Pio Marmaï, por sua vez, oferece ao filme um centro de gravidade curioso. Seu personagem parece atravessar a narrativa como um sonâmbulo sentimental, uma figura suspensa entre passado e presente, memória e desejo. Em torno dele, Gilles Lellouche acrescenta uma energia especialmente divertida, compondo um desses personagens que vivem divididos entre o afeto e o interesse.
O que permanece ao final, contudo, não é a intriga nem os sucessivos equívocos. É o tom. Salvadori já afirmou que sonha com um cinema feito de ironia, sofrimento, leveza e burlesco. LA VÉNUS ÉLECTRIQUE talvez seja uma de suas aproximações mais evidentes desse ideal. Um filme que transforma o luto em número de palco, a culpa em gag visual e a fantasia em ferramenta de sobrevivência.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 69/100

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