Bugonia


E se a verdade está lá fora? Ou não? Yorgos Lanthimos explode mentes e arranca retinas metafísicas com outro cinema dadaísta, daqueles que não se limita a nos apresentar um enredo, mas nos lança em um transe psicotrópico de teorias conspiratórias: abelhas abduzidas, Atlântida afundada, dinossauros dizimados, pirâmides projetadas… é senão a Marvel grega sob planos de imperadores intergalácticos, tudo e todos seduzidos em um pot-pourri de paranoia digital. Sim, do Big Bang à BUGONIA, ame ou deixe.

No subsolo do absurdo, dois missionários da desinformação sequestram uma CEO e possível alienígena. Tal ação flerta com ares de arquivo X, donde cada fio de cabelo raspado e cada frasco de loção anti-alienígena se convertem em metáforas do colapso de uma civilização. Lanthimos filma esse transe como se as câmeras tivessem ingerido mel adulterado por raios gama, capturando cada olhar de Emma Stone e cada murmúrio de Jesse Plemons como se fossem rinhas de pensamentos, sinais de vida extraterrestre em uma frequência apenas perceptível aos intérpretes obsessivos do cosmos oculto. E é nesse subterrâneo de LOUCA OBSESSÃO que o filme nos transforma em cúmplices de um plano que pode ser real, ou inventado, ou pura loucura.

O roteiro funciona como laboratório de tais teorias, um mapa caótico onde a extinção das abelhas se conecta à terra plana ou seja lá o que for, cada evento histórico se dobrando em especulação: dinossauros devorados por aliens, a areia do Saara monitorada por drones invisíveis, cada conspiração aliterando com a outra como um mantra de delírio coletivo. Obviamente, o cineasta não nos oferece respostas, nem pretende; apenas calcula equações delirantes em código cifrado, e a cada frame, essa tensão se intensifica como se o universo estivesse prestes a acionar “delete”.

É o tal niilismo delirante de um cineasta cuja decadência e diversão conseguem reduzir tudo — o cosmos, o tempo, um DENTE CANINO ou uma LAGOSTA — a um espaço confinado de quatro paredes. O público torna-se simultaneamente arqueólogo e psicólogo, desenterrando camadas de absurdo com a delicadeza de quem folheia um manuscrito secreto da deep web. A comédia é ácida, a tragédia é quase física, e entre um grito e outro, percebemos que talvez riso e horror sejam apenas a mesma moeda de cobre alienígena, polida por conspirações e cera de abelha.

Para isso, uma fotografia reflete a loucura: gigantesca, densa, e tão precisa que a dimensão do espaço e a claustrofobia do porão se fundem em uma experiência quase espiritual. O design de produção adiciona entulho e camadas de temporalidade suspensa, o século XX rural-americano como cápsula atemporal onde conspirações fervilham, enquanto a trilha sonora vibra na frequência intergaláctica interceptada por rádios antigos.

Desse surto, do ataque de luz e sombra, do manifesto de caos e paranoia, desse (novo?) episódio de “Além da Imaginação”, Lanthimos não quer nos convencer de nada, apenas nos transformar, nos fazer tatear a escuridão da verdade ou da invenção com os dedos grudados em mel e fios de alumínio. E ao final, quando os créditos se dissolvem, somos deixados com a pergunta que alimenta toda a experiência: e se tudo fosse verdade? Ou se nada fosse? E para os observadores mais atentos, há sutis sinais de que Emma Stone não é apenas humana (quantos Oscars mesmo?), que seu olhar, suas pausas e decisões carregam o peso de um legado estelar, um mistério que só a mente mais curiosa ousaria decifrar. Já sabíamos disso, aliás, desde LA LA LAND.

RATING: 74/100

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REVIEW · VENEZA · SAN SEBASTIAN · MOSTRA SP

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