

YELLOW CAKE é febril: a imagem já nos chega corrosiva, amarela, saturada até o limite da retina, como se a própria película estivesse à beira do colapso, exalando radiação e delirante sob um sol impiedoso. Não se trata apenas de um cenário pós-apocalíptico, e sim de estado contínuo de contaminação, um transe coletivo no qual Picuí emerge como epicentro de um pesadelo infestado de mosquitos, a fronteira invisível entre ciência mal calculada, mito ancestral e ficção pulp dos anos 50. Tiago Melo tão somente encena esse mundo como quem assume a infecção como método, combinando horror, ironia e imaginação popular até que tudo pulse sob o mesmo espectro de alerta e urgência, como fosse um organismo abduzido por entidade antiga que encontra ali seu hospedeiro.
Aqui, os mosquitos operam como consciência coletiva, um olhar que se distribui pelo enxame, quase uma civilização alienígena, antiga demais para precisar de naves. Há algo de mitológico nessa invasão, como se forças soterradas no solo do sertão tivessem encontrado nos insetos um corpo provisório para retornar ao mundo. A própria narrativa adota essa lógica de infiltração, avançando pela ocupação gradual do espaço, como uma entidade que se organiza antes mesmo de ser notada. Cada cena acrescenta densidade a essa presença difusa, ampliando a sensação de uma inteligência em formação, algo que observa, aprende, se adapta. É assim que o estranho se instala aos poucos, passa a habitar o cotidiano, reorganiza gestos, corpos e paisagens, enquanto a herança do cinema B se manifesta na estilização cromática, na invasão progressiva dos corpos e em um flerte contínuo com o body horror, sempre contido, sempre à beira.
Nesse território contaminado, Tânia Maria surge como ponto de concentração: sua personagem não reage ao caos, parece existir antes dele, como se já soubesse o que ainda está por vir. Seu corpo carrega o tempo do lugar, uma memória mineral que atravessou guerras, promessas de progresso e ciclos de exploração. Em meio ao delírio radioativo, sua figura opera como um oráculo cansado, alguém que já viu demais para se surpreender. Cada aparição sua reorganiza o filme, trazendo uma densidade que não se explica pela trama, e sim pelo gesto, pelo olhar atento, pela maneira como sua voz parece brotar do chão rachado. É nela que a narrativa ancora sua dimensão mais trágica, lembrando que toda invasão sempre encontra territórios já demarcados por outras violências.
Se a presença de Tânia Maria condensa o tempo do território, Rejane Faria introduz fricção: sua protagonista não carrega o passado, mas se debate com o agora, com o corpo exposto ao ambiente, às promessas de controle e às consequências do experimento. É através dela que o sertão deixa de ser apenas memória e passa a funcionar como espaço de confronto, onde ciência, sobrevivência e crença se misturam sem hierarquia clara. A paisagem se torna operativa, não mais como símbolo, e sim como campo de ação, um solo que reage, contamina e devolve aquilo que nele se tenta enterrar.
Ao fim, o que se vê é o próprio ciclo do inseto que nos assombra: há um tempo de incubação, quando a ameaça ainda é imperceptível, diluída no calor, na paisagem, no cotidiano… depois, a eclosão lenta, quase silenciosa, quando o estranho começa a ocupar frestas, a modificar ritmos, a insinuar uma presença que ainda não se impõe. Por fim, a proliferação, não como explosão espetacular, e sim como tomada irreversível do espaço, quando tudo já respira sob outra lógica. O filme jamais oferece resolução ou purificação. Não há retorno ao estado anterior porque não há estado anterior possível. O que se completa não é um conflito, e sim a metamorfose. Tiago Melo encerra o filme como quem observa um enxame estabilizado, plenamente adaptado ao ambiente que conquistou. A contaminação deixa de ser exceção e passa a ser ordem. Resta ao espectador caminhar por esse mundo amarelado, atento ao zumbido persistente que continua ecoando mesmo após o último plano, lembrando que toda infestação bem-sucedida começa sem alarde, cresce em silêncio térreo e só se torna visível quando já é tarde demais. E sim, “porque é da natureza”, como nos canta Cátia de França nos créditos.
RATING: 71/100

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