




Tarantino tropicado? VELUDO AZUL na beira da buraqueira? Brian de Palma de bermuda, brisa e bronca no cinema São Luiz? Pode ser, mas é mais. É muito mais… porque Kleber Mendonça Filho filma o Brasil com cheiro da sombra do Recife: O AGENTE SECRETO infiltrado entre Carnaval e caramelos, fusquinha amarelo e fila no posto, tudo entre fuxico, farda e falsidade fina. É Brasil do Brasil de buzina e bode, de buxo cheio de pinga e suor, gente graúda e miúda e sotaque que sibila, que sussurra, que sassarica. E nesse sacode de memória, ele (re)conta — com pirraça, com picardia — um tempo estilhaçado de cinquenta anos atrás: o faz com espiões e milicos, suspense suado, fofoca chorosa, horror que arde feito queimadura de Sol. É drama vivo, vibrando na veia, novela em película, novela das oito com dentes, com cecê, com desatino. Tem mocinho de sandália, bandido de regata, crente com Bíblia, pipoca, plot twist, e aquele discurso que só Kleber saberia dar: direto, debochado, denso, assim como dança de frevo em tapete vermelho, como quem filma com fé, fúria e farinha no coração.
O ano é 1977, mas não apenas na tela, ele está cravado na carne seca da lembrança, no cheiro raso do Recife antigo. É o Brasil sentido com os olhos de menino, aquele Brasil que, mesmo distante, ainda pulsa na memória, feito suor que seca mas não some. Cinco décadas se foram, o mundo girou, o país trocou de roupa, mas a ironia que corta (e é aí que o filme finca sua faca) é que, nos últimos dez anos, parecemos pisar assustadoramente para trás, voltamos no tempo, voltamos nos modos… no medo. Um moralismo mofado.
Então, o diretor descasca o passado bem longe do sussurro amargo de Walter Salles em AINDA ESTOU AQUI: sua câmera é a faca e o faro, mesclando erudito com um pulsar de gêneros, seja terror, policial, grotesco, não importa, o faz em uma destreza contemporânea onde o suspense é hábito e o caos, mera narrativa, porque nada aqui é em linha reta: o enredo vai, volta, tropeça e divaga, quebra a lógica e sempre e de novo. São memórias costuradas com linha de espinho, coladas com gente e superstição.
Não é só a “fanfarra dos bota-pretas”, mas um destilar do gosto metálico da ameaça, o ranço da vigilância, o hálito de pavor cotidiano que infestava tudo. A abertura já nos corta a carne: um cadáver abandonado ao sol num posto de gasolina, esquecido por todos, polícia ou povo, ali derretendo entre moscas e caramelos como oferenda à indiferença. Talvez seja bandido, talvez militante, talvez só mais um e em paralelo, Carnaval! Confete e cadáver. Wagner Moura segue, então, rumo ao Recife, fugindo de algo ou alguém. Quem? Por quê? Sossega… é carnaval! E na festa (ou esconderijo?) de exilados e resistentes, o filme escancara as janelas para infernos paralelos, as tais burocracias podres, violências miúdas, senão a própria sociedade onde vítima e algoz se confundem no mesmo RETRATO (FANTASMA?) de sempre.
Naturalmente existe cangaceiros, sumiços e silêncio espesso como caldo velho. E também um tubarão: dentro dele, uma perna cabeluda, sim, o Brasil engole o próprio povo e ainda arrota. É barroco, é cru, é grotesco… e a fotografia acompanha o espetáculo como quem convoca antigos espíritos: com excesso, cor, pujança. E o cinema lhe acompanha mais ainda na denúncia, quase em procissão, no rito, no recado em forma bem atual: o passado não passou. Ele apenas se disfarçou e agora dança frevo danado de novo, entre a gente.
RATING: 90/100

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