L’Espèce Explosive


L’ESPÈCE EXPLOSIVE é cinema/quase/profecia que abre fendas, cancera, mastiga, repisa… um cinema/colapso donde a distopia não é só cenário, mas condição espetacular na paisagem rural francesa: a guerra entre agricultores e caçadores dentre javalis enormes, numerosos demais, monstros que assolam as plantações como se a natureza tivesse decidido devolver a violência cometida. Então, o que parece fábula ecológica avança ainda pior: um sistema de predação econômica, moral, humana donde tudo é excesso e falta ao mesmo tempo. Excesso de corpos, de raiva, de terra aberta na rachadura. Falta de futuro, de linguagem assertiva, de saída…

De um lado, um homem desaparece depois de quebrar e tal desaparecimento não é policial, mas a dissolução completa do humano. Do outro, a polícia começa a escavar, mas o que encontra não é verdade, só camada sobre camada de decomposição social. Então, o que se vê, o que Sarah Arnold filma é cinema/opressão. Um filme/desespero. Um guincho que não chega a virar palavra porque a palavra já está comprometida, já foi mastigada, cuspida, reaproveitada pelo modus operandi de uma distopia que não é futura, mas quase doméstica. Está logo ali, atrás da porta, respirando junto.

O roteiro trabalha essa matéria como se o mundo fosse carne em estado de vigilância falha. Carcaças ao sol, sacos plásticos, peles de animal, o cheiro imaginado de putrefação atravessando o enquadramento… há algo de ritual degradado nisso tudo, como se a civilização esquecesse o nome das coisas e passado a chamá-las apenas por suas consequências: dano, resto, ruína… e donde a violência se enraíza no mais estrutural, se infiltra como mosca, como febre, como pensamento psicótico. Homens quebrados, homens cheios, homens vazios demais para perceber o próprio vazio. Os corpos estão ali só para evidenciar que ainda há matéria para sofrer.

Alexis Manenti, o policial, e Ella Rumpf, a psicóloga, orbitam esse colapso como duas formas de consciência em curto-circuito. Ele, uma autoridade que não sustenta mais ordem nenhuma. Ela, uma escuta que ameaça desabar no mesmo abismo que tenta interpretar. Entre os dois, o mundo não se explica. Tão somente adoece enquanto a cineasta constrói um território onde o masculino é um sintoma coletivo de um sistema em pane. E no centro, o javali: animal que cresce quanto mais é caçado, a metáfora viva de um mundo que responde à repressão com a multiplicação do caos.

Como o título em inglês, o filme é bestial porque entende a besta como extensão do humano e há uma inteligência cruel nisso: a de mostrar que a moral dos imorais não precisa de gritos, apenas de gestão. Alimentar o javali para que ele fique na floresta é política. Deixar de alimentá-lo também. Toda escolha já é partido, uma violência atribuída cuja encenação, deliberadamente áspera, recusa qualquer conforto. O mundo, sim, é representado, é tensionado ao limite. Cada plano parece conter algo prestes a romper, como se o enquadramento fosse uma tentativa desesperada de segurar a realidade antes que ela escape pelos dedos. E então, a psicanálise entra como outro tipo de batalha, querendo a linguagem contra o colapso. Mas até a linguagem falha. Porque aqui, falar é já estar dentro daquilo que se tenta explicar. O filme sabe disso e insiste mesmo assim como quem continua chafurdando depois que o chão já virou lama.

No fundo, trata-se de uma distopia do presente contínuo. Não há depois. Há só repetição. Há só retorno. Há só a sensação de que tudo está sempre prestes a piorar e piora. E ainda assim, algo insiste em permanecer vivo: uma energia punk, desobediente, quase ingovernável, que atravessa o filme como animal que recusa ser capturado. E ali ficam, os javalis conosco na soleira até os créditos finais.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 73/100

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REVIEW · CANNES

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