

THE GOLDEN AGE é assombroso, não porque convoque fantasmas no sentido literal, mas porque cada plano parece carregado de presenças que insistem em sobreviver dentro da emulsão da película. Homens e mulheres do século passado olham diretamente para a câmera, assim como faziam nos primórdios do cinema, donde ainda não existia a gramática de se esconder diante da lente. E sim, tal sensação nos remete diretamente ao gesto inaugural de L’ARRIVÉE D’UN TRAIN EN GARE DE LA CIOTAT, dos irmãos Lumière: o registro de rostos fascinados por um dispositivo que ainda não sabiam nomear (o cinema), mas já os transformava em memória.
Para isso, Bérenger Thouin parte de um procedimento técnico que inevitavelmente recorda THEY SHALL NOT GROW OLD, de Peter Jackson: restauração, colorização, manipulação de imagens de arquivo, reinvenção de um passado fossilizado em preto e branco, mas onde Jackson procurava devolver corporeidade documental à Primeira Guerra, Thouin avança para um território muito mais instável e poético. Não só restaurar o passado, mas contaminá-lo de ficção, infiltrar uma personagem inventada dentro das ruínas reais do século XX. E, nesse processo, faz algo raro: transforma o arquivo em romance.
Assim, Souheila Yacoub, nasce filha de açougueiros e atravessa décadas tentando reinventar o próprio destino. Mãe solteira, enganada, fugitiva, amante, colaboracionista, sobrevivente… ela carrega em si todas as contradições de um século, e o faz com certa inocência primordial, encenando a vida como os velhos melodramas encenavam: frontalmente, sem cinismo, quase na carruagem da Nouvelle Vague. Há momentos, inclusive, que a tela parece ressuscitar não apenas as imagens, mas a maneira antiga de filmar: as pessoas atravessando o quadro com uma pureza que remete ao cinema de Manoel de Oliveira, especialmente essa capacidade rara de transformar artifício em emoção. Thouin não esconde as costuras entre as diferentes texturas visuais, pelo contrário, as marca como cicatrizes. O preto e branco se dissolve em technicolor e retorna ao preto e branco como uma memória falhando diante dos próprios olhos. A película treme. As granulações mudam. Os rostos do arquivo encaram os atores contemporâneos até que já não seja mais possível distinguir onde termina o documento e começa a invenção.
E talvez aí resida a mensagem: entender que toda memória já é uma forma de ficção… as imagens de época, originalmente destinadas aos cinejornais da Gaumont-Pathé, são arrancadas de sua função histórica e recolocadas em circulação afetiva. Um trem chegando à estação, operários deixando uma fábrica, enchentes em Paris, navios, guerras, multidões, tudo deixa de ser apenas História para se tornar matéria sentimental. Então, quando a protagonista atravessa essas imagens, o filme atinge algo vertiginoso: é como se JULES E JIM surgisse correndo entre os frames, a lembrança de um cinema apaixonado por movimento, por corpos fugindo do tempo.
Sim, a guerra está sempre ali, mas frequentemente fora de quadro. O que se vê, atravessa duas guerras mundiais, mas o faz de olhos vendados, o roteiro mais interessado em perseguir seus afetos do que em compreender o peso histórico dos acontecimentos ao redor. O interesse é humano, por se dizer, uma história onde se tenta amar, fugir, sobreviver, inventar uma vida possível e nada mais. E talvez por isso emocione tanto porque simplesmente registra as pessoas olhando para a câmera. Rostos anônimos. Fantasmas mecânicos registrados em nitrato. Homens e mulheres que continuaram vivos apenas porque alguém um dia os filmou.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 74/100

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