Viva


VIVA é o aplauso, a alegria, a felicitação: é uma daquelas palavras que parecem tão simples, de fato é, mas quando ecoam, esse VIVA como brado de pulmão, o grito da praça, o entusiasmo de quem ergue um copo e celebra a permanência no mundo, tal palavra vai além, além do VIVA como adjetivo, porque agora a interjeição pulsa, sangra e contagia… então, VIVA também como imperativo íntimo ou tão somente um filme: viver e viver plenamente antes que a vida se fecha outra vez. Eis, então, o cinema de Aina Clotet donde as acepções do termo coexiste em uma só comédia, uma história que transforma crise existencial em combustão e onde o linguajar espanhol a incrementa ainda mais com excesso, calor e fulgor, quase como se fosse uma tourada sentimental diante da urgência ou iminência da morte.

E assim começa a projeção, com a própria Aina nesse estado febril: sua protagonista, aos quarenta anos e recém-curada de um câncer, se lança em duas relações simultâneas com homens radicalmente distintos, Tom e Max, eles não exatamente como rivais românticos, mas projeções partidas das próprias ansiedades da personagem. Ela que corre entre ambos como alguém tentando escolher não o amor, mas uma versão possível de si mesma. De um lado, Tom encarnando a estrutura, a previsibilidade, quase uma promessa de sobrevivência emocional; Do outro, Max representa o impulso, o descontrole, a sedução da incerteza. E a personagem oscilando entre ambos como quem tenta reconciliar corpo e mente, desejo e autopreservação… Clotet descreve sua personagem como a encarnação simultânea de medos e esperanças de tantas mulheres que atravessam a maturidade em um mundo emocionalmente instável, e há algo de profundamente contemporâneo nessa incapacidade de distinguir paixão de anestesia.

O roteiro flerta com a estrutura clássica da comédia romântica, sim, encontros desastrados, diálogos ferinos, pequenas humilhações sociais, mas aos poucos, e só um pouquinho, se desloca para algo mais melancólico porque o foco é sobretudo de leveza, preservando o humor mesmo quando o argumento mergulhe em temas dolorosos. E talvez seja justamente aí que VIVA encontre sua singularidade: a comédia nunca como remédio para aliviar a angústia, mas para expô-la ainda mais. Isso filmado com energia quase tátil. Os ambientes parecem sempre aquecidos demais, iluminados demais, cheios demais de gente, vinho, música, corpos e ruído. Toda essa cor, lentes e movimentação de câmera como extensão do estado emocional da personagem e tudo inflamado, quase sufocante, como se o mundo inteiro estivesse tentando nos convencer de que ainda existe intensidade suficiente para justificar permanecer vivo.

Ainda é uma comédia, sim, mas daquela espécie que ri olhando diretamente para o abismo. O humor nascendo aqui e ali desse desconforto, da impulsividade, da vergonha de continuar desejando quando já se deveria ter aprendido alguma serenidade.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 67/100

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REVIEW · CANNES

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