Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte


Jane Schoenbrun surta no camp(ing), no cinema de foco borrado, short molhado e gritaria no lago. Um slasher que recolhe todos os clichês do terror adolescente, joga no liquidificador e serve fumegando ao lado de frango frito num prato lambuzado de sangue cenográfico. É tão exagerado que ultrapassa o kitsch, vai além, acima, num estado cármico de mau gosto iluminado. Tudo soa plástico, reluz glitter, transpira libido fluorescente. O cenário parece de papelão; os adolescentes parecem saídos de um pornô esquecido entre SEXTA-FEIRA 13 e um comercial da Pepsi dos anos 90; e cada frase é disparada como se houvesse uma competição clandestina para decidir quem consegue soar mais absurdamente sexy segundos antes de ser esfaqueado. Sim, divertidíssimo.

E o truque é justamente esse: atrair o público com a embalagem de chiclete radioativo para depois esfaqueá-los com tantas referências. Depois de transformar a nostalgia televisiva em fantasma existencial em EU VI O BRILHO DA TV, a diretora mergulha agora na poça de sangue mais pegajosa do imaginário americano: o slasher de verão. E mergulha de cabeça, sem colete salva-vidas, sem vergonha, sem qualquer intenção de permanecer seca.

ACAMPAMENTO MIASMA não é apenas um filme, mas sim, a maldição encontrada em fita VHS esquecida atrás de uma estante de videolocadora. Uma daquelas capas que prometiam peitos, machados e gritos e entregavam peitos, machados e gritos em quantidades industriais. O diferencial é que Schoenbrun pega esse entulho cultural, esse parque de diversões hormonal construído por décadas de exploração adolescente, e transforma numa ópera de identidade, desejo e fantasia cinematográfica. Um cenário donde os figurantes usam shorts minúsculos, o assassino encarna um espectro saído de pesadelos eróticos e a fumaça parece ter sido fabricada numa máquina de algodão-doce demoníaca.

A premissa é deliciosamente metalinguística: Kris, uma jovem cineasta encarregada de ressuscitar uma franquia slasher decadente, procura Billy, a “last girl” que sobreviveu ao primeiro filme da série fictícia Camp Miasma. O encontro entre as duas rapidamente abandona qualquer compromisso com a realidade e desliza para um território de romance, obsessão, trauma e fantasia pipoca. É como se Norma Desmond tivesse adotado uma filha queer e decidido criá-la dentro de uma loja de Halloween construída sobre cemitério indígena.

O mais fascinante é que Schoenbrun não só satiriza o slasher, mas o abraça com fervor religioso e ali, filma (ou idolatra?) cada gota de sangue falso, cada suspiro exagerado, cada morte teatral. O filme entende que o terror adolescente dos anos 80 era uma espécie de pornografia emocional para uma geração inteira. Um carnaval de carne, culpa e curiosidade sexual onde todos corriam muito, gritavam muito e morriam muito. Um diretor qualquer desmontaria esses mecanismos, mas Schoenbrun, pelo contrário, os beija na boca.

Tudo no filme existe nesse estado de artificialidade gloriosa. Os cenários lembram matte paintings de um estúdio que jamais existiu. A neve parece isopor. O lago parece iluminado por uma lua artificial. O acampamento inteiro flutua entre sonho febril, parque temático e instalação artística de alguém que viu Dario Argento sob efeito de açúcar. Não à toa, a direção de arte reflita esse sentimento de bazar fantasmagórico donde todas as décadas coexistem. Os anos 70 entram pela porta da frente vestindo veludo. Os anos 80 chegam carregando uma faca ensanguentada. Os anos 90 aparecem com um CD de Alanis Morissette no bolso. E tudo amarrado em fios de neon e melancolia.

No centro do delírio estão duas performances extraordinárias. Hannah Einbinder interpreta Kris como alguém constantemente à beira de atravessar um portal invisível. Seu desconforto parece físico. Ela anda pelo filme como quem tenta encontrar a saída de um labirinto construído de pôsteres de horror. Já Gillian Anderson surge como criatura de um conto gótico, desses escritos por Almodóvar depois de consumir quantidades imprudentes de absinto. Sua Billy é diva, bruxa, viúva, guru, estrela decadente e fantasma sentimental ao mesmo tempo. As duas compartilham uma química estranha, inquietante e profundamente romântica. O texto tão só abandona qualquer medo do ridículo. Pelo contrário: transforma esse ridículo em combustível.

E sim, havemos Little Death: não só o monstro, mas um manifesto ambulante. A aparição espectral envolta em plástico, lenda urbana e desejo reprimido. Um anjo vingador das videolocadoras. Um Freddy Krueger sonhando que é Ney Matogrosso. Um Michael Myers em plena crise de identidade. O resultado oscila entre a gargalhada e o êxtase. Entre o trash e o transcendental. Entre um cinema exploitation e o cinema de autor. Há momentos em que parece que John Waters sequestrou David Lynch. Noutros, que Bertrand Mandico resolveu refilmar ACAMPAMENTO SINISTRO em remake queer.

O mais impressionante, porém, é que tal cinema jamais pede desculpas pela extravagância. Em tempos de entretenimento calculado por planilhas e franquias produzidas por comitês corporativos, Schoenbrun realiza um gesto quase revolucionário: faz um filme estranho. Estranho de verdade. Estranho até o osso. Estranho como uma fita encontrada na floresta depois de décadas enterrada. E digo: “olá, BRUXA DE BLAIR!”. Mas mesmo assim diferente, porque aqui o sangue é rosa. E o horror finalmente aprende a dançar no TikTok.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 75/100

TRAILER

Article Categories:
REVIEW · CANNES

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.