
Ainda durante os créditos, uma sensação nos permanece… não apenas a impressão de que o universo continua vasto, silencioso e insondável, mas algo ainda mais antigo e mais profundo: o vislumbre da infância em que o céu parecia infinito demais para caber na imaginação. Daquele momento em que uma estrela podia ser nave. Em que alguma luz distante podia esconder civilizações inteiras. Em que cada constelação parecia guardar um segredo. Steven Spielberg tão somente nos devolve essa emoção, não como cenário, não como experiência, mas simplesmente na esperança. Desde os clarões indecifráveis dos CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU até a silhueta luminosa do E.T. – O EXTRATERRESTRE, suas histórias encontram no universo um território onde maravilhas ainda eram possíveis. E de fato são.
Então, que venha o DIA D, uma (nova) fascinação revestida de (novas) inquietações: o menino que sonhava diante da imensidão continua ali. Continua observando a lua, perseguindo luzes, imaginando mundos no horizonte… a diferença é que agora ele contempla a humanidade quebrada pelo medo, desinformação e desconfiança. E talvez por isso, que tal cinema se volte aos céus: como se procurasse, dentre galáxias e mistérios, (alg)uma centelha capaz de nos lembrar que o assombro – qualquer que seja – ainda existe. Que o desconhecido ainda possa ser belo. E que a galáxia continua grande o bastante para abrigar todos os nossos sonhos.
Poucos cineastas compreendem o mistério com tamanha sensibilidade: Spielberg sabe que o desconhecido não se revela por aquilo que se vê, mas o faz como algo imaginado, talvez uma centelha, uma sombra que atravessa o enquadramento. Ou então, um brilho repentino, um olhar súbito, o reflexo impossível surgindo através do vidro. Tal cinema parece carregado de eletricidade, como se algo insondável tentasse atravessar a superfície do mundo para finalmente se perceber. E tal sensação de presença, não a presença física, mas essa vibração constante que percorre a narrativa como radiofrequência viajando pelo espaço, tal estática se vê, se sente e assim irradia pela projeção, estradas, tempestades, telas e extensões vazias das planícies americanas com solenidade religiosa.
E é impossível não perceber tais contatos (imediatos? Etéreos? Transcendentes?): eles estão em toda parte, pelo ar, pela terra, nos personagens atraídos por forças inimagináveis, nessa convicção de que o universo é menos hostil do que se imagina. Mas DIA D não vive só de referências. Spielberg não revisita seu passado para celebrá-lo, mas questionar. Sim, o encantamento permanece, mas agora ao lado da paranoia. A esperança resiste, mas permeada de uma humanidade desconfiada. Talvez por isso seja um dos filmes mais espirituais dele. Não porque trate da religião no sentido mais tradicional, mas porque se interessa pelo próprio conceito de fé. Fé na possibilidade de compreensão. Fé na capacidade humana de aceitar aquilo que desafia as certezas. Fé em algo que transcenda fronteiras, governos, instituições e ideologias.
Emily Blunt compreende perfeitamente essa frequência. Sua protagonista se ilumina aos poucos, sua percepção de mundo se expande. Línguas desconhecidas surgem de forma espontânea. Conhecimentos impossíveis afloram em memórias esquecidas. Intuições se transformam em pontes. O roteiro trata essas mudanças não como superpoderes, mas sintomas de uma consciência que desperta para algo maior. Existe uma delicadeza admirável na maneira como ela absorve esse extraordinário. Primeiro pelo medo. Depois o fascínio. Por fim, a compreensão de que certas verdades não servem para ser dominadas, mas acolhidas.
Então, a comunicação emerge como tema central. Não apenas a comunicação entre espécies, mas entre seres humanos. Entre culturas. Entre crenças. Entre pessoas que desaprenderam a escutar. Não por acaso, palavras, vozes, línguas e sinais atravessem toda a narrativa como correntes invisíveis, ali conectando indivíduos separados por oceanos de incompreensão. Não à toa, Janusz Kaminski transforme a luz em linguagem, sua lente desvanecendo em neblinas, reflexos e tempestades envolvendo cada personagem, como se caminhassem entre dois mundos.
E então chega o desfecho… sem revelar seus mistérios, basta dizer que o cineasta alcança algo raro no cinema contemporâneo. Algo que nos esmaga pela grandiosidade, a contemplação. A sala então silencia não por choque, mas por reverência. Como se durante alguns minutos todos estivessemos diante de algo que ultrapasse nossa capacidade de explicar. Tal cinema fala sobre pertencimento. Sobre conexão. Sobre a necessidade de acreditar que existe algo além da violência e solidão. E ali mesmo, ainda durante os créditos, uma sensação nos permanece, talvez seja algo sagrado.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 77/100

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